Fazem exatamente 25 anos que ganhei do meu pai meu primeiro cachimbo. Me senti um expert quando ele me levou à Nat Sherman, tradicional tabacaria novaiorquina e me deixou escolher o primeirão. Não tinha idéia de como começar e apenas no visual acabei por fazer uma boa escolha que ostenta minha estante até hoje, com especial destaque: foi um Savinelli, "punto oro" de um briar bem claro sem qualquer falha, no formato "rodesian".
Foi o primeiro de muitos, mas aquele Savinelli nunca esqueço. Com ele comemorei grandes acontecimentos em minha vida!
É um cachimbo bem conservado que uso de vez em quando.
Cachimbos são peças que duram toda uma vida. Tenho muitos, dentre eles peças de estimação que pertenceram ao meu avô paterno e a um tio, cachimbeiro dos bons, que me ensinou a gostar dos tabacos Dunhill. Foi para ele que, quando ainda garoto, trouxe do exterior as primeiras latas do A21000, tabaco numerado, de um blend exclusivo, registrado nos livros do famoso tabaconista, na série "My Mixture"... hoje tenho a minha mistura também, embora meus tabacos de predileção sejam o Apricots & Cream (um blend de Black Cavendish, Green River Vanilla e Apricot Brandy) da Cornell & Diehl e o Early Morning Pipe (uma miustura tradicional inglesa à base de tabacos Latakia, Virgínias vermelho e claro e orientais) da Dunhill ambos não disponíveis em nossas paragens. Mas os tabacos de eleição podem mudar. Já tive épocas de ir ao Mercadão comprar fumos "Amarelinho" e "Tietê" para picar na ponta-da-faca e ter com eles o mesmo prazer das mais sublimes misturas importadas...
Hoje, mesmo depois do susto de um belo enfarte, sigo gostando de uma cachimbada para relaxar, obviamente que com muito menos intensidade do que no passado, mas com o mesmo espírito da busca de momentos de prazer e contemplação.
Sempre digo que para se fumar cigarros é preciso ter coragem; para fumar charutos (dos bons) é preciso ter dinheiro; mas para fumar cachimbo é preciso ter paciência e, no início um pouco de persistência.
Fumar cachimbo é adaptar um ritual ocioso de descontração e prazer, que requer atenção, destreza e conhecimento. Talvez seja esta a razão que leva a maioria das pessoas a associar o cachimbo a pessoas nobres, sofisticadas e profissionais.
O cachimbo, embora partilhe algumas similaridades com o charuto e os cigarros, é muito diferente. Um cachimbo é muito mais difícil de fumar, pois requer mais que uma boca e um fósforo. É necessário dominar alguns artifícios, como o de encher o fornilho, acender eficazmente e o ritmo de fumar para mantê-lo aceso, para poder apreciar o verdadeiro sabor dos tabacos.
Uma das vantagens que o cachimbo tem sobre o charuto e o cigarro, é a quantidade de tabacos disponíveis; existem milhares de marcas com inúmeras misturas e diversos tipos de tabaco, que, por sua vez podem ter potenciais componentes de misturas caseiras.
Embora o sabor do tabaco varie com a região de produção e seu processo de obtenção, os charutos têm um aroma muito similar. Estou, apenas, a referir-me aos charutos com qualidade comprovada, e não daqueles "embrulhados" em plástico, cuja qualidade é muito duvidosa.
Esta limitação aromática talvez se deva à restrição geográfica de cultivo. No que toca às regiões produtoras de tabaco para cachimbo, estas são numerosas. Por exemplo: o Latakia, um tabaco oriental bastante conhecido pelos fumadores de cachimbo, é curado sobre uma fogueira de madeiras exóticas (antigamente era estrume seco de camelo), o que lhe confere um sabor único; o Perique, um tabaco da Louisianna, que é fermentado, demonstra um sabor apimentado com passas, o Xanthi, um tabaco turco, evidencia um aroma complexo a avelãs tostadas...
Esta diversidade aromática dos tabacos é, adicionalmente, incrementada pelos métodos de secagem, prensagem e corte, que são diversos e, todos eles proporcionando diferentes aromas. Para além do tabaco, por vezes existe a adição de essências aromáticas, como a baunilha e a cereja. Eu, particularmente, prefiro os tabacos "in natura" e em flake, sem aqueles aromas que são agregados ao fumo, até mesmo porque o cheiro de chocolate ou cereja que os outros sentem, não são exatamente os que ficam no paladar do cachimbeiro. Prefiro sentir o sabor do tabaco na sua mais pura acepção. Um bom tabaco para cachimbo pode ser comparado a um vinho safrado com paladar, bouquet e produção limitada, com preço exatamente proporcional a essas características.
O cachimbeiro, em geral acaba por ter marcas de tabaco de predileção. Ou ao menos certos tabacos para certos momentos, uns mais fortes e outros mais fracos, mais ou menos aromáticos, sendo certo que há uma diferença, sutil diferença, entre os aromáticos e os aromatizados.
Numa analogia feliz, a diferença entre sorver um tabaco aromatizado industrializado e um tabaco aromático de boa cepa, é a mesma de uma imagem de um televisor a preto e branco e a de um televisor a cores, pois não posso considerar que um "naco" de tabaco cheio de aditivos, prensado em um pacote fechado a vácuo, possa ter sabor. Mas nada que assuste; para começar, nada melhor do que um tradicional tabaco industrializado com corte miúdo, de combustão fácil e uniforme. Esses, aliás, são os mais comercializados...
Por outro lado, a beleza de um cachimbo é indiscutível. Mesmo que o indivíduo não seja um verdadeiro conhecedor de cachimbos, certamente, conseguirá apreciar um. E o melhor, é que depois de acabar de fumar ainda o pode guardar, e apreciá-lo vezes sem conta. O próprio cachimbo é uma forma de arte, muitos deles brotam zelosamente das mãos de um artesão. São vários os aspectos a considerar no cachimbo, o material (urze, espuma do mar, espiga de milho, porcelana...), o formato do fornilho ou da haste, o ângulo do pescoço o sistema de arrefecimento (cooler). O que o torna num instrumento de precisão ao qual se alia uma hipotética beleza extraordinária.
Apesar da idéia que a generalidade das pessoas tem sobre o aspecto econômico de fumar cachimbo, este é, possivelmente, o mais barato. Não que se compare o preço de um cachimbo Dunhill ou Savinelli Autograph com o preço do maço de Marlboro... mas se levarmos em conta que um cachimbo nacional de ótima qualidade pode custar cerca de R$ 60 e um pacote de 50g de tabaco importado custe cerca de R$ 20, prestando-se a cerca de vinte cachimbadas de uma hora cada uma, podemos ter uma idéia do custo reduzido desse hábito ou hobby que para muitos pode ser considerado caro ou exorbitante...
Uma das grandes desvantagens de fumar cachimbo, para além de todos aqueles "truques" de encher e manter aceso o cachimbo, é a necessidade de trazer algum equipamento conosco sempre que saímos, uma bolsa que deve conter o cachimbo, o tabaco, um calcador ou socador, um isqueiro e alguns escovilhões. No entanto dispensa-se, por um maior período de tempo, um outro item que é necessário a todas as outras formas de fumar, e que é consideravelmente mais volumoso, o cinzeiro.
A limpeza do cachimbo, também se pode tornar um pouco complicada, mas quando se ganha prática este ritual acaba por passar despercebido.
Em termos de saúde, não podemos afirmar que o cachimbo é inócuo de fumar. No entanto, fumar cachimbo, tal como o charuto, é menos prejudicial que os cigarros, sobretudo se não inalarmos o fumo. Enquanto fumamos cigarros somos obrigados a inalar gases provenientes da combustão do papel que contém diversos químicos para auxiliarem uma combustão ordenada e uniforme, como o alcatrão e a pólvora. Mais, o tabaco usado nos cigarros é, normalmente, de fraca qualidade e contém diversos aditivos químicos para melhorarem as suas propriedades de queima, tal como o amoníaco, substância que causa uma grande dependência.
Tenha em atenção uma coisa, apesar de todo o prazer que possa ter em fumar, existem pessoas que não compartilham minimamente as suas opções ociosas; não as obrigue a inalar o seu fumo, principalmente quando estão em causa crianças. Dois dos requisitos de um bom fumador de cachimbo são o respeito e a educação.
Conforme já disse, pelas minhas atuais condições, fumo pouco cachimbo, mas quando o faço, me desligo do mundo, enlevado pelo perfumado aroma.
Outro dia estava pensando sobre a iniciativa do Ministro Gil de tornar patrimônio cultural o chá da ayahuasca... Não que o cachimbo esteja relacionado a alguma prática religiosa, mas certamente, pelo relax que proporciona ajuda a chegar às portas da percepção.
Conforme os anos passam, vamos apurando nosso paladar e olfato. Penso que com o cachimbo aprendi a sentir profundamente outros aromas, da natureza, do cheiro de mato, da maresia, da quietude... aprendi que posso meditar, até trabalhando.
Guardo os cachimbos muito bem guardados e, apesar de tantas e tantas mudanças, carrego um sempre comigo para onde vou. No mínimo uma bela cachimbada me dará tempo para pensar ou meditar e estar preparado para o próximo round que a vida me reserva.
É isso.



Um comentário:
Sabe, eu estava pesquisando pela net, por um blog que vende belos cachimbos e me deparei com este teu, por um acaso. Mas confesso que o li de propósito.
Li sobre sua história e sobre nossa em comum paixão pela arte de cachimbar.
Mas o que mais gostei em tudo que você escreveu, foi do tom alegre de viver uma vida incerta, mas misteriosamente sedutora demais para se negar.
Vou guardar desta aparente coincidencia, mais que uma lição sobre a "arte de viver".
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