A Polícia Federal realizou nesta terça-feira a operação Satiagraha, que investiga desdobramentos do caso Mensalão. Foram presos o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, o empresário Naji Nahas e o banqueiro Daniel Dantas, que a esta hora já "descansam" na carceragem da Superintendência Regional da PF em São Paulo.
Não só por ter como alvo pessoas de grande projeção na vida empresarial e política do país, mas também pela volta das ações bombásticas e espetaculosas da Polícia Federal, a operação, mais uma vez, causa perplexidade.
É nitidamente mais um exemplo do uso imoderado das prisões cautelares que tem fundamentado o direito penal do espetáculo. Ora, o fato de a imprensa ter acompanhado mais uma vez a operação mostra que estava correta a preocupação do presidente do STF, quando disse na semana passada que a Polícia Federal vaza informações sobre operações para obter os resultados que espera.
De fato, essa nada mais é do que uma tática para forçar confissão, conforme bem salientou o Toron no Última Instância: “Prisão temporária é decretada para humilhar e para colocar o suspeito aquém da linha da dignidade humana. No passado, a pessoa era torturada para confessar. Agora, é preso para facilitar o trabalho da Polícia que diz: ‘colabora meu amigo que você vai obter liberdade’. Essa tem sido a regra”.
Tudo isso sem falar que o que deveria demonstrar a qualidade do trabalho de uma operação é o conteúdo e substância das provas, não a deflagração da ação. De fato, há a execração pública das pessoas, que nada mais é do que uma forma de antecipar a condenação.
O engraçado é a ironia do destino, no nome da operação: "Operação Satiagraha"...
Não sei quem é o cara quem batiza essas operações da Polícia Federal, mas essa passou dos limites...
Em sânscrito, "Satya" significa "verdade". Já "agraha" quer dizer "firmeza" Assim, "Satyagraha" é a "firmeza na verdade", ou "firmeza da verdade". Gandhi foi um dos idealizadores e fundadores do moderno Estado indiano e um influente defensor do Satiagraha (princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto) como um meio de revolução.
No mínimo presunçosa alcunha da operação... será que se pode dizer que a operação deflagrada é embasada na firmeza da verdade é surge embasada nos princípios da não agressão, quando a própria prisão acautelatória já se apresenta como uma forma terrível de violência?
Por outro lado, Satiagraha também é freqüentemente traduzido como "o caminho da verdade" ou "a busca da verdade". Historicamente, a atuação de Gandhi e seus conceitos também inspiraram gerações de ativistas democráticos e anti-racistas, como Martin Luther King e Nelson Mandela.
Quiçá os ideais democráticos e anti-preconceituosos presentes no Satiagraha de Gandhi, Luther King, Mandela e outros idealistas que nos servem de exemplo, de fato iluminem os caminhos de nossos policiais. Pelo menos assim espero.
É isso.



Um comentário:
Olá, bom dia!
Cheguei através do seu blog por meio de uma pesquisa no Google sobre o conceito de "Satiagraha".
Aproveitei pra ler o artigo na íntegra e fiquei pensando... Com tantas "brechas" jurídicas previstas em nossa legislação penal, com tantas possibilidades de escusa e ainda com o princípio da presunção de não culpabilidade, que muitas vezes é usado distorcidamente para atingir interesses pessoais, o que seria das investigações se não existissem as prisões temporárias??? Ressalto, prisões temporárias devidamente expedidas em conformidade com a lei.
Um abraço e..é isso.
Quis só refletir mesmo.
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