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terça-feira, 14 de outubro de 2008

O preconceito está entre nós

A palavra “preconceito” tem como significado uma opinião ou um conceito formados por antecipação, geralmente com precipitação, destituídos de análise mais profunda ou conhecimento de determinado assunto, sem levar em consideração suficientes argumentos contrários e favoráveis, sem o devido cotejo entre os múltiplos aspectos que incidem sobre os fatos, por conseguinte, sem a suficiente e necessária reflexão.
O preconceito está geralmente relacionado com a ignorância, aqui vista como a ausência de conhecimento acerca de determinado assunto. Invariavelmente se encontra acompanhada da teimosia, que é sua escrava fiel.
Mas, o pior preconceito é aquele viceral, eivado de maldade, consciente, que merece ser coibido a qualquer custo.
Por exemplo, há o preconceito às mulheres na direção: diz-se por aí que toda mulher dirige mal.
Isso é generalizar; é rotular toda e qualquer mulher de "braço duro", mesmo que existam exímias motoristas do sexo feminino. Da mesma forma que seria preconceituoso ridicularizar uma dirigente apenas porque ostenta sapatos Ferragamo ou belos costumes Dior ou Valentino.
Há quem pergunte, num outro exemplo, se é seguro casar com uma mulher separada, acusada de traição? Seria essa uma forma de preconceito ou apenas uma demonstração de falso moralismo?
O amputado sul-africano Oscar Pistorius transformou o preconceito ao deficiente, literalmente, na mola propulsora de uma chance de participar das Olimpíadas de Pequim. O Ministro Joaquim Barbosa Gomes não perdeu tempo olhando para a própria pele na sua escalada ao Supremo Tribunal Federal.
Apenas 60 anos após a abolição do sistema de classes ou castas na Índia, Hari Pippal já está milionário. Nascido na classe mais baixa dos “párias” indianos, hoje ele emprega 24 médicos da classe mais alta em seu hospital próximo ao Taj Mahal. Hari venceu, apesar de 1500 anos de preconceito.
O preconceito sempre existiu, existe e existirá por um bom tempo, e nem precisa ser étnico, religioso, sexual ou social. A partir do momento em que compramos algo, subimos de posto, fazemos uma opção sexual ou adotamos uma opinião qualquer, passamos a olhar os outros e sermos vistos de forma diversa. Pergunte ao torcedor do Corinthians o que ele pensa do torcedor do São Paulo e vice-versa.
Mas o pior tipo de preconceito é, sem dúvida, aquele eivado de maldade, intencional, para tirar vantagem. Falo do preconceito velado ou daquele que é auto-imposto, que serve de desculpa para tudo. Pior do que ser discriminado é sucumbir à discriminação, sentir-se o maior dos injustiçados e mostrar a carteirinha de discriminado sempre que quiser conseguir algo, como é o exemplo da mulher que se diz discriminada por ser apenas mulher. É valer-se dessa condição para se fazer de vítima numa sociedade em que homens e mulheres já são tratados em condições de igualdade.
Em alguns casos a tentativa de se amenizar os danos causados pelo preconceito pode resultar em leis ou esforços de ação afirmativa, que é a preferência de emprego dada aos membros de uma minoria. Como toda ação gera uma reação, o troco vem na forma da discriminação reversa, quando a maioria exige condições iguais. Quando os fumantes britânicos passaram a fumar fora da empresa, os não fumantes reivindicaram os mesmos dez minutos de recreio.
Há formas culturais e curiosas de discriminação auto-imposta. Busque no Youtube por “fair & lovely ad” ou “pond’s white beauty” e veja os comerciais de produtos para clarear a pele. Enquanto as mulheres ocidentais se cremam no sol para escurecer, as indianas usam creme para clarear. Os comerciais são mini-novelas: a mocinha pobre e de pele escura alcança o sucesso após descobrir que o creme compensa. Politicamente incorreto para os padrões ocidentais, esse tipo de apelo parece ser normal por lá.
Penso que o preconceito deve ser encarado com bom humor quando é fruto da ignorância, ingenuidade ou pura burrice. Está mais para gafe do que para discriminação deliberada, embora seja expressamente probido por lei, inclusive na esfera constitucional.
Nesta toada, recordo de um programa de horário eleitoral gratuito veiculado antes do primeiro turno das eleições municipais em São Paulo, em que o protagonista, já afastado do certame, revelou um preconceito no mínimo engraçado. Dizia o candidato: "Vai votar num anestesista ou numa sexóloga para governar São Paulo??? Tem que votar num engenheiro!!!"
É isso.

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