html Blog do Scheinman: O Proer voltou, mas quem vai pagar a conta?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Proer voltou, mas quem vai pagar a conta?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira medida provisória que autoriza o Banco Central a adquirir carteiras de crédito de bancos no país por meio de operações de redesconto.
A autoridade monetária também poderá fazer empréstimos em moeda estrangeira a instituições financeiras. Caberá ao Conselho Monetário Nacional definir as garantias a serem aceitas nessas operações.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou que a MP ajuda a preservar a economia brasileira dos efeitos da crise financeira global, mas que, no momento, ele não vê necessidade de as operações serem postas em prática.
"Hoje não vemos necessidade de exercer essa prerrogativa, na medida em que já foram tomadas outras medidas que permitem aos bancos maiores adquirirem as carteiras dos bancos menores", afirmou Meirelles a jornalistas.
"Mas a boa técnica prudencial diz que é importante que um país tenha um emprestador de última instância com todos os recursos necessários. "O BC atualmente já empresta recursos para bancos, mas as operações são de curtíssimo prazo, geralmente overnight.
A Lei de Responsabilidade Fiscal já permitia operações de redesconto em prazos mais longos, disse Meirelles, mas a MP era necessária para dissipar questionamentos jurídicos, principalmente no que diz respeito às garantias oferecidas pelos bancos.
Agora, o CMN fará nos próximos dias uma reunião extraordinária para estabelecer os ativos que podem ser oferecidos pelos bancos em garantia a essas operações, que serão feitas "na medida da necessidade", segundo Meirelles.
Na semana passada, o BC flexibilizou a regra do recolhimento compulsório de depósitos bancários a prazo, para permitir que os bancos utilizassem parte desses recursos para adquirir carteiras de crédito dos bancos pequenos e médios. Segundo Meirelles, "uma série" de operações nesse sentido foram fechadas nesta segunda-feira, mas ele não deu detalhes. A MP também permite que as empresas de leasing sejam autorizadas a emitir títulos de crédito denominados Letra Arrendamento Mercantil.
Aliás, tenho um certo receio com relação a esses papéis, eis que sua segurança orbita justamente na solvência dos arrendatários contratantes. Há que se verificar, no que se refere à liquidez, segurança e circulabilidade desses novos títulos, qual o grau de insolvência atualmente existentes no rol dos contratos de leasing, para que se evite a negociação de títulos com lastro duvidoso...
Mais cedo, o presidente do BC já havia anunciado em uma primeira entrevista coletiva à imprensa que o BC passará a usar parte dos recursos das reservas para adquirir títulos "de primeira qualidade" de bancos brasileiros no exterior, por meio de leilão, com o compromisso de revenda. Meirelles afirmou que as mudanças da MP não foram também anunciadas mais cedo porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis primeiro discutir as mudanças com as lideranças da base aliada com quem se reuniu no Palácio do Planalto durante a tarde. As primeiras informações sobre a MP foram anunciadas a jornalistas por deputados que participaram do encontro. Meirelles reiterou que o sistema financeiro não vive um problema de solvência e está sofrendo apenas com a falta de liquidez "importada" do exterior. "Temos que reagir ao que acontece no mercado internacional, o problema é externo. "Segundo uma fonte do governo, que pediu para não ser identificada, o foco principal da possibilidade de o BC comprar carteiras de bancos visa principalmente ajudar as instituições menores.
Fiquei um tanto reticente com a notícia e a forma através da qual se pretende "socorrer" as instituições que se mostrem em estado periclitante.
Já houve tentativa semelhante no passado e que, com o passar do tempo, se mostrou fraca e com resultados deveras prejudiciais aos cofres públicos e, em última análise, a nós enquanto contribuintes.
Estão reeditando, através de Medida Provisória, o Proer, Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, programa brasileiro que teve como finalidade "recuperar" instituições financeiras que se encontravam com problemas financeiros a encargos convidativos, mas infelizmente, sem planejamento, sem análise de riscos e com garantias que se mostraram absolutamente frágeis ou podres. O custo do equilíbrio da economia, com o Proer, foi alto demais.
Teve como parâmetros legais a Resolução 2.208, de 3 de novembro de 1995 do Conselho Monetário Nacional (CMN), e as as Circulares Bacen de nºs 2.636/95, 2.672/96, 2.681/96, 2.713/96, que trataram da reestruturação da carteira de ativos e passivos; as circulares 2.636/95 e 2.681/96, que tratam das fusões, transferência de controle acionário e modificação do objeto social; e, por fim, as circulares 2.369/97 e 2.748/97, que dispõem de créditos junto ao FGC.
A princípio, foi um mecanismo salutar para a salvaguarda de instituições fragilizadas financeiramente. No entanto, se visto sob outra ótica, com o período inflacionário, inúmeras instituições bancárias e financeiras realizavam desvios monetários, que eram normalmente "acobertados" pela inflação, ou seja, a desvalorização da moeda se processava de forma tão rápida que qualquer valor era quase que imediatamente absorvido, impedindo auditorias de descobrir facilmente tais acontecimentos.
Com a estabilidade inflacionária, inúmeros balanços se viram a descoberto, e as instituições débeis financeiramente. Pode-se dizer, por esse ponto de vista, que o Proer foi um prêmio à corrupção.
No período de 1995 a aproximadamente 2000, foram destinados mais de R$ 30 bilhões a bancos brasileiros, aproximadamente 2,5% do PIB. A preços de 2005, equivaleria a aproximadamente R$ 44,23 bilhões.
Mas, ultrapassada a questão das garantias frágeis, da falta de planejamento e da ausência de transparência em muitas das operações realizadas, muitas instituições bancárias que não gozavam da imprescindível higidez soçobraram e os bens dos depositantes foram preservados em sua integridade.
De qualquer forma, procurando-se vislumbrar pontos positivos no programa então desenvolvido, de alguma maneira (mesmo que lerda e sem a respectiva remuneração), os valores investidos pelo programa estão sendo paulatinamente reincorporados pelo Banco Central. Os efeitos benéficos da atuação do Banco Central, naquele momento, verificam-se até hoje com uma suposta estabilidade econômica e um aparente sossego e solidez do sistema bancário.
O economista Mailson da Nóbrega, chegou a afirmar que: "O que salvou o Real foi o Proer. Se o governo não tivesse tomado essa iniciativa, corria o risco de enfrentar uma crise gigantesca do sistema financeiro."
Importa destacar não haver sido usado dinheiro do orçamento federal, sem transigir naquilo que era essencial à estabilidade fiscal do País. Os recursos vieram da própria reserva bancária, formada pelos depósitos compulsórios que os próprios bancos são obrigados a retirar de todos os depósitos efetuados à vista e entregues, como garantia, ao Banco Central.
Isso fez parte do amplo programa, incluindo a federalização para posterior privatização de bancos estaduais. Houve, portanto, um período que ensejou a venda de bancos estaduais, muitos dos quais debilitados e enfraquecidos por políticas equivocadas. Fez-se o refinanciamento das dívidas dos Estados e a emissão de títulos da dívida pública com cláusula de reajuste cambial.
É curioso lembrar que quando o governo brasileiro decidiu injetar recursos para evitar a quebradeira dos bancos, após o Plano Real, foi considerado vendido ao sistema financeiro. Até hoje o Proer tem aura de tramóia.
Apenas tenho receio quanto ao "Novo Proer": Não há mais bancos estatais para privatizar, as reservas dos bancos junto ao BC são inferiores às do passado e os títulos da dívida pública com reajuste cambial não se mostram como uma opção de investimento atraente. Por outro lado, " em rio que tem piranha, jacaré nada de costas"... Numa primeira vez já houve a prestação de garantias frágeis e podres e a cobrança de encargos abaixo dos praticados no mercado: que garantias há de se exigir com esse novo plano para recuperação do sistema financeiro??? Quais os encargos que serão cobrados dos beneficiários do dinheiro??? Só sei que, como contribuintes, mais uma vez, não deveremos calar face a planos que beneficiem alguns em detrimento do todo. Em suma, de onde virá o dinheiro para esse "Novo Proer"? Serão criados novos impostos? Quem pagará a conta, a final???
Penso, além disso, que também seria muito melhor se esse "Novo Proer" não fosse criado através de Medida Provisória, no afogadilho, sem ser antecedido de uma discussão efetiva acerca de sua viablidade, natureza e finalidade. Penso que mais uma vez ficará a impressão de que se trata de uma operação de salvamento de bancos falidos com recursos do erário.
Espero que nossas atuais autoridades tomem o antigo Proer como bom exemplo para que aqueles episódios encerrem uma lição preciosa sobre confiança e desconfiança. A confiança tem o seu arcabouço na realidade e em informações verídicas e bem fundamentadas, portanto na transparência do processo de tomada de decisões pelo Poder Público.
Quiçá o "Novo Proer", mais uma vez, não passe de uma amostra de como a política econômico-financeira é conduzida, em geral deliberada em um grupo fechado, sem participação sequer do conjunto do Governo Federal, com decisões divulgadas de sopetão ou de surpresa, para que ninguém, salvo alguns "insiders" privilegiadíssimos, possa tirar proveito de seu conhecimento antecipado, para alcançar bons ganhos especulativos no mercado financeiro.
É isso.

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