html Blog do Scheinman: Será que o professor de direito precisa ser durão?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Será que o professor de direito precisa ser durão?

Sou professor de Direito há quase 20 anos e essa é talvez a atividade que desenvolvo que me gera mais satisfação. De fato, procuro praticar a docência de forma amena, longe daquele formato do professor rígido ou opressor, tão comum nas Faculdades de Direito que se espalham pelo País.
Aliás, foi-se a época em que o aluno de direito devia ser tratado como criança... parto do pressuposto de que um discente de direito - especialmente aqueles que já realizam estágios - já conhece suas responsabilidades em comparecer às aulas independentemente de controle de presença, sabe que deve entregar trabalhos práticos e seminários e que o aprendizado não se limita a uma série de informações jogadas ao léo no ambiente de sala de aula. Penso que o aluno de direito é um ser amadurecido; é muito mais um companheiro de estudos para o resto da vida do que um pós adolescente que deve ser tutelado como se ainda estivesse no curso ginasial...
Por outro lado, tenho percebido um rejuvenecimento dos docentes, ou seja, a presença de professores cada vez mais novos em sala de aula, em que a idade pouco interfere em sua titulação ou competência.
Nesta toada, ser um professor "light" tornou-se uma constante. Efetivamente, os docentes sempre penaram para ter a atenção e o aproveitamento nas aulas de direito. E, com alguma regularidade o humor, a piada e os exemplos cômicos têm sido utilizados para tal fim. Aliás, o anedotário, assim como os "causos" jurídicos existentes são vastíssimos.
Não é só. A piada virou também objeto de estudo nas salas do país.
Muitas vezes, com a fórmula "humor + ironia + sarcasmo" conseguimos ilustrar uma situação real dramática de contexto atual, inserta no universo ou na norma ou fato jurídico.
O humor está presente na vida, não somente nas piadas que correm de boca em boca e nos "textos para rir".
A importância do uso de textos e exemplos, assim como de um vocabulário, que estejam mais próximos da realidade do aluno para o estudo do direito, auxiliam a intelecção do discente: ora, não se pode analisar um fato jurídico como quem autopsia um cadáver, estático, morto, parado no tempo.
É preciso analisar o fato como estando em movimento, inserido num contexto maior, vislumbrado no tempo e no espaço. Pode parecer um chiste falar em fato jurídico e o cadáver, mas trata-se de uma maneira dotada de certo humor negro, para abordar, pelo menos num prisma inicial, as teorias positivista e tridimensional do direito... A compreensão de uma piada não passa pela decodificação do texto, mas sim pela interpretação. Ao interpretá-la, estimulam-se o questionamento sobre o texto e a descoberta da lógica do conjunto, levando à busca de novas leituras de um mesmo enunciado legal.
Penso que, em termos de metodologia científica aplicada ao direito, podemos utilizar textos de humor, tanto para mostrar as possibilidades de leitura superficial que os alunos podem fazer de enunciados legais, quanto para promover o estudo dos dispositivos em profundidade, que causam os efeitos de humor e num paralelo permitem o entendimento da real intenção do legislador ao compor a norma.
Não há dúvida de que os textos humorísticos aguçam o raciocínio, a capacidade de ler as entrelinhas e de perceber ambigüidades. Um tema complexo fica bem mais palatável com o recurso do humor e com um vocabulário mais coloquial e, por isso, torna-se uma maneira mais fácil de se aproximar do aluno. Inclusive estimulando seu raciocínio, já que a piada não entrega o assunto de "mão beijada".
Há piada para todo gosto e conteúdo lingüístico. Em Humores da Língua (Mercado das Letras), Sírio Possenti, lingüista da Unicamp, analisa e classifica textos de humor, apresentando um interessante material que pode ajudar professores de gramática da língua.
"- Estou com vontade de ganhar na loteria de novo? - O quê? Você já ganhou? - Não. Mas já tive essa vontade antes."
Não se trata de explicar a piada, mas os mecanismos que levam ao riso. A comicidade está no uso da expressão adverbial de novo no final do período. Numa leitura linear da primeira fala, não se percebe a existência de ambigüidade em relação ao que a expressão está determinando, se é a vontade ou o ganhar. A mudança de posição tiraria todo o efeito: "Estou de novo com vontade..."
Essa percepção dá uma clareza maior aos alunos de que nem sempre o que se quer dizer fica claro à primeira vista, pois dentro da língua há outras possibilidades de entendimento. A percepção dessa ambiguidade, por exemplo, é de suma importância no entendimento dos textos doutrinários e da jurisprudência e das normas jurídicas em sí.
Um outro foco, também embasado no humor, está na análise de mecanismos da língua, como efeitos da pontuação, coesão e coerência, voz do narrador, repetições de palavras e temas ou, ainda, qual a melhor maneira de expressar determinada idéia, quais palavras se encaixam melhor, como tornar o texto mais engraçado, a questão do inusitado etc.
Como técnica desenvolvida em tese desenvolvida na Faculdade de Letras da USP suscita-se que depois de escolhida uma piada, ela é escrita na lousa e a discussão sobre pontuação é a primeira a ser feita, já que a pontuação é um ponto importante da piada, porque dá o ritmo e marca as pausas que darão o sentido do texto.
Segundo a técnica, a estratégia está sendo eficaz; os alunos se divertem e conseguem entender com bom humor a importância dos pontos e das vírgulas no texto e, com isso, adquirem mais facilidade na hora de escrever seus próprios textos. Passada a fase da escrita, os alunos são convidados a montar uma piada, utilizando os dispositivos apreendidos nas discussões. Esta fase é um pouco mais complicada, porque os alunos ainda têm um pouco de dificuldade de criar o desfecho inusitado, mas o treino é bastante empolgante. No universo do direito tal técnica, de analisar a pontuação, é de suma importância para a análise de dispositivos legais. Não é incomum que uma simples vírgula mude integralmente o sentido de uma Lei...
Qualquer registro em língua portuguesa serve como objeto de análise e reflexão para uma aula de direito, mas piadas podem dar um toque a mais ao conjunto...
Como dizem os lingüistas: "É no humor e nos momentos de aparente descontração de uso da linguagem que vamos encontrar os mecanismos de produção de efeitos de sentido, os quais, de maneira aparentemente contraditória, mostrarão as possibilidades e as riquezas da língua."
Beth Brait, professora da USP, autora de "Ironia em Perspectiva Polifônica" ensina que: "Se o lingüista quiser investigar, por exemplo, questões fonológicas, morfológicas ou sintáticas, as piadas oferecem um material muito interessante, pois é como se os seus enunciados estivessem sempre, digamos, no limite, entre terem um sentido ou terem outro, e entre terem uma estrutura ou terem outra. Isso obriga o analista a considerar mais finamente o material lingüístico que está sendo analisado."
Penso que, por meio do humor ou da piada, estamos estudando a construção da crítica social.
Estudar o direito é estudar a sociedade à qual nós pertencemos. O riso é um gesto social e uma forma de punição. Então, numa sociedade que se quer crítica, não é possível desprezar esses efeitos de sentido do humor, que também são um índice para avaliar-se o pensamento crítico do jovem.
Enquanto professor de direito que se utiliza da simplicidade, do coloquial, do humor, penso que rimos menos de uma censura que relaxa do que de uma coincidência rara. Muitas vezes, talvez se ria do próprio direito ou da Justiça, não porque eles não teriam as virtudes que se suporia que deveriam ter (porque podem falhar), mas porque nos propiciam agradáveis coincidências e descobertas.
É isso.

Nenhum comentário: