Será que já posso morrer?
Eis uma pergunta um tanto tenebrosa para se iniciar uma postagem. Mas, confesso que a formulei algumas vezes nos últimos tempos.
Será que já cumpri as minhas tarefas nesse mundo?
Ou será que já passei por situações tão boas em minha vida a ponto de declarar que já posso ir para o além?
Na verdade, pensando pequeno, em miúdos, ainda não sei responder a essas indagações. Preciso refletir um pouco...
Não sei o que o futuro me reserva e, se não viver, nunca saberei. Não posso arriscar não saber, daí a busca das forças pela vida, mesmo que em determinados momentos de alucinação ache que não possa valer à pena.
Perdi muitas coisas queridas. Materiais, espirituais, frutos de minha própria existência. Mas, não sei de onde, talvez da graça e energia divinas, encontre sempre forças de ultrapassar os obstáculos que surgem à minha frente. Gosto de viver. Tenho energia para tanto. Não esmoreço e tenho sempre alegria pelo momento seguinte.
Esta talvez uma explicação teológica acerca do adiamento da morte, mas no que concerne à sua realidade, como o fim da vida, como o objetivo da penso ser interessante socorrer-me dos ensinamentos de Martin Heidegger, filósofo alemão contemporâneo existencialista, em suas considerações acerca do “viver para morrer”.
Analisando-se os estudos de Heidegger, verifica-se que o foco de sua filosofia centra-se na consciência humana de seu momento fatal: a morte.
Ou seja, diante da perspectiva consciente da ocorrência futura da morte, acabamos por tornar nossas vidas mais autênticas, valorizando cada momento e cada pormenor, buscando a realização plena e pessoal dentro daquilo que chamamos de “realidade”.
Observo que nos dias atuais um elevado número de pessoas vive uma existência inautêntica, inverossímil, falaciosa, concebida e desenvolvida tal como um disfarce, uma “carcaça” de aparência expressiva agradável aos outros, longe do cada um por si mesmo, do que pensa, do que sente, do que efetivamente é.
É o mundo “cor de rosa”, guiado por parâmetros alheios à nossa vontade, ditados por características do ter, possuir, demonstrar, mostrar, ostentar, exibir, ao invés do ser, estar, valorizando-se as características intrínsecas do ser e não apenas o seu exterior.
Através de nossa vivência e sobrevivência, adotamos certos parâmetros, idealizamos sonhos, estabelecemos certas metas e objetivos, fazemos planos dentro de coordenadas pré-estabelecidas por nossos parâmetros sociais, morais, religiosos, profissionais, acadêmicos, etc.
Enfim, lindes estabelecidos pelo próprio meio em que estamos inseridos, seja no plano espiritual como material.
Assim, os projetos e almejos diários, a cada dia, se mostram mais distantes, ensejando sempre crescentes esforços com o fito de alcançar as referidas metas e objetivos. E, quanto mais nos esforçamos, mais distantes ficam as metas, eis que para o ser humano pensante, o objetivo sempre está além daquilo que pode efetivamente conseguir. A natureza humana é eternamente insatisfeita. Talvez seja esta a força motora da humanidade, já que o proposto e o sonhado estão cada vez mais longe e com isto sua realização também mais difícil e diferida para uma data mais longínqua.
Outrossim, somos apenas titulares das certezas indubitáveis de nosso agora e do momento fatal, pelo que transferimos este longe para o amanhã incerto, o que também torna sua realização incerta, inatingível; a eterna busca de um vazio que nunca acaba dentro de sua própria ilusão.
Mas o essencial para a vida - e para que possa, efetivamente, ser bem vivida - é uma existência autêntica. Destarte, para que possamos chegar a essa existência autêntica, longe do que a massante sociedade nos impõe, devemos nos abstrair das ilusões que criamos em nossas vidas, dos ideais existentes em nossas mentes, seja no consciente ou no sub-consciente.
É imperioso enxergarmos os fatos, atos e pensamentos com objetividade, sem as tais lentes cor-de-rosa, e termos a percepção do que remanesce de nossos dias, com a absoluta certeza de termos vivido o passado na sua plenitude e sem arrependimentos e na perspectiva de vivermos o futuro na busca do sabor de viver o futuro na busca de nosso próprio ser, de nosso “eu” mais profundo, buscando o aclaramento das incertezas e dúvidas residentes no amanhã.
De fato, através do que somos, podemos realizar um trabalho de busca e alcance e, consequentemente de conquista e, levando em conta os objetivos de fácil alcance que promovem outros mais entruncados, profundos, maiores e de mais extenso alcance, estaremos conscientes de nossas reais conquistas.
No entendimento de Heidegger, consolidar o prazer que se conquistou no pequeno que obteve, é manter o grande que se sente. O prazer e a satisfação de se ter, de ser o que se é, o que se sente não é de curto nem de longo prazo, é vivido dentro de sua vivência e da convicção da existência autêntica.
Nada de um depósito de realização de felicidade num incerto depois; é o fim visível, mas é a mínima realização de hoje, pelo indivíduo, no agora, com vistas ao futuro.
E qual a relação entre essas considerações acerca da existência autêntica, metas e objetivos com a vida e seu momento fatal, a morte.
Em que consiste, efetivamente o “viver para morrer”?
Como responder à questão inicial: “será que já posso morrer?”
Penso que os dias mais inspirados de nossa existência são aqueles que apresentam as maiores adversidades. Talvez seja um contrasenso que nos leve muitas vezes à indagação do “porque viver”?
Ora temos apenas que viver, mas não viver em vão, por nada. Temos que viver para superar os obstáculos! Viver para vencer as adversidades! Viver pela vida e perseguindo nossos objetivos! E, enquanto durar esta busca, definitivamente, não é hora de morrer!!!
Se a vida fosse vazia e o tempo simplesmente passasse livre, sem que o aproveitássemos, num infinito “dolce far niente”, a vida não teria sentido. Não seria vida. A vida apenas passaria desapercebida diante de nossos olhos...
Penso que a resposta do estar pronto para morrer consiste no viver. Viver intensamente. E viver intensamente nunca é o suficiente. Apenas o covarde (ou o mais corajoso) suicida se dá por satisfeito no viver.
Temos que dar dias às nossas vidas e não vida a nossos dias.
Temos que dar ícones à nossa existência, e não elementos para nossa vivência. Assim como evoluímos em nossos valores de forma tão sublime e tão fatal, a vida, como uma eterna conquista, é esta busca que um dia, sem percebermos, naturalmente, chega ao seu final.
É isso.



Um comentário:
Mauricio,
Profundo o seu texto,muito reflexivo,mas não posso deixar de dar uma divagada:
Imagine o céu,com aquele gramado sem fim,sem nada errado acontecendo,aquela paz atormentadora,será que não é o cult do tédio?
E o inferno,com aquele fogo eterno,com todos os figurões lá juntos,sem nenhuma perspectiva de saída,nada novo acontecendo,ufa,que nhaca hein?
Melhor continuar vivo aqui mesmo,não achas?
Um grande abraço,amigo.
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