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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Estamos em 2009: A palavra agora é "Esperança"

Acabou a festa. Mas está tido mundo mais feliz.
Aquelas roupas brancas compradas a preços estratosféricos já estão nos cestos de roupas para lavar. As lingeries brancas, vermelhas, amarelas também. Assim como os mocassins alvos e as sandálias prateadas ou com strass...
As latas de lixo contém mais garrafas do que nunca. E só de sobras desperdiçadas é possível montar ceias para todo um batalhão de esfomeados.
Os catadores de latinhas têm a féria garantida pelos próximos dias.
As praias infelizmente um pouco mais poluídas, talvez por causas nobres, ligadas à fé... aliás, flores se decompõe facilmente e pular ondinhas não faz mal a ninguém. Lembro-me neste ponto da velha máxima dos bros do mar, de que o bom é destruir as ondas e não as praias...
Uma dinheirama enorme gasta com fogos de artifício. Não gosto deles. Acho dinheiro literalmente queimado, mas como sempre disse Joãozinho Trinta, o povo gosta é de luxo!
Namoros deflagram-se nestes dias. Juras de amor e fidelidade eterna. Novos votos. Compromissos para o ano que entra. Talvez umas poucas decepções.
Novas metas. Novos objetivos. Uma vontade enorme de melhorar... Promessas mil. Algumas impossíveis de ser cumpridas.
Neste período sempre procuramos ver o que faremos no próximo exercício, ou melhor, neste exercício.
Mas, o que mudou nas últimas 24 horas? Houve algum passe de mágica que tornou o mundo melhor? o Brasil mais desenvolvido? o saldo em nossa conta mais polpudo? remissão de nossas dívidas? menor devastação da natureza? menos agressão às crianças e adolescentes? menos drogas na sociedade e escolas? menos alcoolismo? menos guerras? menos concorrência desleal? diminuição da criminalidade? diminuição da violência doméstica? menos escândalos em todos os níveis e escalões do governo? a debelação da crise econômica mundial? a erradicação da pobreza, da fome e das epidemias que assolam o planeta?
Será que o badalar dos sinos das vinte e quatro horas do dia 31 de dezembro de 2008, iniciando-se o dia 1º de janeiro de 2009 fez alterar alguma coisa na realidade em que vivemos????
Caro leitor... deve estar pensando: ... "- nossa que cara pessimista... bem no primeiro dia do ano já vem pensar só em coisa ruim... chamar um monte de praga... sai prá lá pedaço de mau agouro!!! vai se foder, gordo maluco. Toma um banho de sal grosso, mete dois ramos de arruda na orelha acende um incenso pra tirar esse espírito ruim desse corpo que não te pertence!!!"
Será que nada mudou mesmo????
Mudou sim! Muita coisa mudou sim!!!! Mudou porque a passagem do ano faz renovar a cada um de nós um sentimento que se chama ESPERANÇA.
Não é apenas a renovação de novos objetivos, metas, planos, sentimentos, mas a busca de forças interiores que nos fazem transpor com mais facilidade os óbices que venham a surgir no novo ano. São as forças que nos permitem evoluir e crescer. E, só encontra obstáculos quem avança. Quem estagna no tempo, fica apenas estacionado, não encontra obstáculos, apenas para, espera, seca e morre.
Mas, quem avança, ganha terreno, luta pelo desconhecido, pelo aprimoramento, pelo crescimento, e encontra meios, às vezes fáceis, às vezes mais complexos, de tourear os obstáculos, certamente, passa pelos anos, com a sensação de ter deixado um ano cheio de realizações para trás e com a perspectiva de ter um ano promissor pela frente.
E, é justamente a esperança que é a força motora para fazer todas essas engrenagens funcionarem.
Falta-nos, no entanto, o conceito de esperança, da luta por melhores condições, de uma solidariedade efetiva com os nossos semelhantes e de força de vontade para vencermos, no presente.
Conforme bem explica Con. Dom José Adriano, a esperança é uma experiência originária, comum a todos os homens. É um fenômeno psíquico que os antigos chamavam de pathos, isto é, uma paixão ou uma emoção suscitada por um bem ainda não presente que se tem a confiança de possuir no futuro. A confiança, desse modo, dá sustento à esperança. A esperança é vista como realizável pela confiança. Confiança e esperança se completam e se supõem. É verdade que, no horizonte da esperança, há incertezas e temores, mas é verdade também que no horizonte da esperança há o ousar, a aventura. O pressuposto psicológico da esperança funda a convicção da possibilidade real de atingir o bem desejado, seja com as próprias forças, seja com a ajuda de outras forças, tais como: ajuda de pessoas, da sorte, de Deus. O esperançoso é um crente, alguém que deseja e crê no real ainda não presente mas que, na fé, é perfeitamente possível. A esperança possui também uma dimensão social. Um povo cativo e sob opressão, esperando um "Goel" libertador, vive, reza, trabalha, se organiza em torno da esperança de ver o sonho realizado. A experiência psicossocial demonstra que o fato de ter uma esperança comum cria unidade entre os que sonham o mesmo sonho, e essa unidade reforça, por sua vez, a esperança. Renovar sempre mais as forças da esperança é imprescindível para a superação das atitudes estóicas de resignação e imobilismo. Gabriel Marcel afirmava que quem vive a vida como uma rotina é “um desesperado que nem mesmo sabe que é desesperado”. A esperança precisa ser vista no contexto da vida humana total. Onde há vida, há esperança, diz o adágio popular! Ela está na raiz da existência, como afirmava Platão no Philebo: somos plenos de esperança por toda a nossa vida; ou Alex Pope in Essay on man: a esperança brota sempre do coração humano; ou com André Malraux: Um mundo sem esperança é irrespirável; e mesmo com Emmanuel Mounier: um homem sem esperança reinventa sempre qualquer esperança. Na crença da ressurreição, a esperança vai além da vida física, porém, na condenação da alma, tudo está perdido, como escreve Dante na Divina Comédia: Vós que entrais (no inferno) deixai toda esperança! A esperança, por ser essência do humano, é mistério. Não pode ser demonstrada e nem mesmo a razão de esperar pode ser perfeitamente compreendida, afirma Gabriel Marcel. Há sempre mais na esperança sobre o que é previsível, isto é, há um caráter de imprevisibilidade, de futuro, de expectativa. Moltmann chega a afirmar, nesse sentido, que a esperança contém uma inadequatio rei ad intelectus. Daí que outras virtudes devem estar presentes, como instrumentos, na compreensão da esperança: a paciência, a constância, a oração por constituírem a fortaleza de ânimo. A contra partida da esperança é a desesperança, comum em nossas sociedades angustiadas. Sören Kierkegaard considerava a angústia como um aspecto constante e necessário da existência humana. Angustiado, o homem não tem como sair do seu desespero. Somente a conversão à fé o pode salvar. Martin Heidegger via no homem um ser para a morte, abandonado na incerteza e na solidão. Em Jean-Paul Sartre é excluída toda esperança, a existência humana está suspensa no vazio, no nada. O homem deve viver no absurdo e no desespero com coragem, deve bastar-se a si mesmo como um super-homem. Nesses vários pensadores, parecem estar presente três causas fundamentais para a rejeição da esperança: a solidão, que exige o sustento do amor de outras pessoas, de ser aceito como pessoa; a incredulidade que é a perda do sentido último da vida e que exige a responsabilidade pelo mundo e pelo futuro da humanidade; e a culpa, cuja impossibilidade de reparação causa desespero e exige, por isso mesmo, perdão e esperança de mudança de rumo. A esperança é, porém, para outros autores, o agir humano mais nobre. Ela é a força fundamental e primária que estimula e impulsiona toda atividade humana. Para Ernest Bloch, por exemplo, o homem é trabalhador, produtor e transformador que ultrapassa, em si mesmo, o trabalho, o produto e o meio transformado. A esperança, nesse caso, é ativa, operante, a mais humana das virtudes e que só os seres humanos possuem. Ela projeta, escolhe, decide, trabalha. Ela transforma a utopia em projeto e depois em realidade. Erich Fromm compara a esperança ao salto do tigre em direção ao seu objetivo. Esperar, pois, é um estado do ser, uma capacidade inata de sonhar e realizar o sonho. Autores como Karl Ranner e C. Caffarra pensam a vocação do homem inserida no conceito da esperança cristã, portanto, como autorealização humana. Paul Tillich traduz esperança por coragem, capaz de enfrentar a ameaça do não-ser. Paul Ricoeur coloca na base de toda filosofia uma afirmação originária, isto é, uma coragem de dizer sim à realidade utópica e um não à estagnação e imobilidade. A Esperança, dessa forma, supera a própria possibilidade. Espera e crê num progresso humano ilimitado. O objeto da esperança humana já foi tema de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, cuja ética apontava como último fim do agir humano a eudaimonia, a felicidade. Toda atividade do homem provém da sua tendência ao bem e, essa tendência, não termina se não no encontro do bem. A esperança de ser feliz é a tendência fundamental do agir humano que o faz ser mais, abrir-se ao próximo, superar o egoísmo e a avidez. A história da humanidade mostra que sempre se esperou um bem maior para a comunidade humana. O próprio sentido da história requer um ordenamento mais feliz para a raça humana. Hoje, em consciência, não aceitamos a violência, a desonestidade, os atos injustos que causam tanto mal. O paradigma da rejeição do mal é a certeza do bem, perfeitamente realizável na esperança. Assim, a esperança de um é a esperança de todos, uma co-esperança
Mas, de fato, falta-nos um verdadeiro conceito de cidadania coletiva e individual, mas isso conquista-se, caso o desejarmos. A hora é de decisão. Navegar para vencer ou ficarmos no âmago da tempestade que veio para ficar. Precisamos de timoneiros e de pilotos conhecedores da náutica política e social. Nós os marinheiros desta pequena nau que se chama "pessoa", temos que assumir um rumo e uma rota, que nos leve a porto seguro, mesmo que isso nos vá custar sacrifícios.
Não podemos trocar a liberdade, a igualdade e a democracia, por esquemas teatrais do faz de conta. É preciso acreditar que é possível e exigir que os homens do leme façam o seu trabalho e que não se deixem arrastar por um ziguezaguear das conveniências econômicas, políticas, sociais, antropológicas, eleitorais, etc.
Cada um deve fazer o seu papel individual em prol da esperança tão importante a todos e, se necessário, substituir aqueles que estão no timão - em todos os segmentos - por outros mais audazes e mais competentes. As vagas e o vento tempestuoso só podem ser ultrapassados coletivamente, se soubermos o que queremos e para onde desejamos ir. Temos que possibilitar trabalho aos mais novos, impulsionar a produtividade a todos e garantir uma vida respeitável aos mais idosos.
E, esta esperança, como força motora à evolução, deve surgir do interior de cada um de nós. E, talvez essa seja a grande mudança, acarretada com as badaladas da meia noite do dia 31 de dezembro de 2008 e com os fogos e festejos do Reveillon. Pelo menos assim espero.
Temos que implantar uma equidade forte em nossa sociedade. Temos que ter um sistema fiscalizador forte do poder político. Temos que buscar soluções para a fome, para a pobreza, para a miséria, para o meio ambiente, para os conflitos armados, para as desigualdades sociais marcantes, para os regimes totalitários e ditatoriais, para a violência doméstica contra mulheres, crianças e adolescentes, para a erradicação e debelação das drogas e eliminação do narcotráfico, para a educação, para o alcoolismo, para os escândalos governamentais que estouram diariamente, para a crise economica mundial, para as epidemias que surgem em todos os confins do globo, enfim... a palavra de ordem é ESPERANÇA, na mais ampla acepção do termo, surgindo de dentro de cada um de nós para fora e funcionando como elemento amalgamador entre cada um e seu semelhante e entre cada célula social e a sociedade, tudo em busca de um 2009 melhor, o mais rapidamente possível, pois faz se tarde na vida de cada um de nós.
É isso.

6 comentários:

Daniela Figueiredo disse...

Mauricio, de todos os conceitos e menções a respeito da esperança, o que mais chamou minha atenção ou que tem mais a ver com minha opinião, é de de Dante Alighieri em sua Divina Comédia, 'aos que entram no inferno, deixem a esperança do lado de fora'. Seria um verdadeiro inferno não ter a possibilidade de esperar o melhor, de desejar o melhor e de se contentar com o ruim ou pouco.
E o final do ano nos faz refletir sobre o que fizemos e o que podemos melhorar. O novo ano sempre será o início de uma nova etapa, um novo começo. Uma oportunidade de melhorarmos ou, pelo menos, termos o desejo de colocarmos em prática algum plano estagnado. Esperança de dias melhores.
Beijos.

joselito bortolotto disse...

Grande Mauricio

Todo ano é a mesma coisa. Mudar? Não. Quase nada, daqui um ano estarão todos renovando os votos de "Feliz Natal" e "Próspero Ano Novo", tudo dantes, sem tirar nem por, talvez um pouco melhor, talvez um pouco piior, mas, os rituais se manterão os mesmos, sem nenhuma criatividade. E estarão todos aqui (menos aqueles que forem este ano)"esperando" um pouco mais.
Um abraço

João disse...

Mauricio,

A Esperança que renova-se sempre quando vota-se,quando acordamos de manhã e respiramos espreguiçando,quando sorrimos e brincamos,quando exigimos dos políticos mais competência,quando sonhamos num mundo melhor e planeta bem cuidado,quando aborrecemos perante a estupidez e egocentrismo,quando indignamos com as pobrezas e injustiças...tudo isto e mais,são as fontes da Esperança,onde ela vai buscar energia renovada e colectivamente compartilhada.

Entretanto o mundo imperfeito vai caminhando nas mediocridades intelectuais e mesquinhices morais,que não devem de abalar a nossa confiança na Esperança,ela é fonte da vida.

Abraço amigo,excelente texto,que faz um apanhado geral da humanidade,
joao

Jorge disse...

Maurício,
eu não perco a esperança nunca. Estou sempre na batalha. Atravessando meus rios e mares, com fortes ondas, vou navegando e cheio de esperança de chegar. Tenho muita fé e só o fato de querer lutar já me faz bem.
Bom ano de 2009 para você.
Abraço

joao Assis disse...

Mauricio,
Que texto completo,hein?
Te digo que á cada despertar,tenho em mimrenovadas as esperanças,mas como uma simples simbologia,nos apegamos á cada inicio de um novo ano,mas também cito que a hipocrisia é presença constante nessa data,pois todos nós estaremos aqui certamente,(excluindo apenas os que se forem,como disse o amigo João)em dezembro,novamente seguindo os mesmos rituais,mas aí volta o assunto central desse texto,esperança,e digo que a minha é que tornemos-nos seres mais conscientes,chamemos para nós as responsabilidades,que existem,e partimos então para a construção de um mundo melhor,pois tudo é feito de participação,conscientização e objetividade,então,vamos á luta!!!
Um forte abraço amigo e parabéns pelo seu compromisso com a edificação.

Anônimo disse...

Apelar para anímicos também é coisa de indivíduo preguiçoso. É fácil não fazermos nossa parte e esquecermos de que temos vizinhos, preferindo orar por todos. Havendo cidadãos, não necessitaríamos da orientação de fés.