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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

BBB: Onde estão os obesos, os carecas e os anões?

De novo venho com o maior reality show da TV brasileira: aquele que chamo de programa de horror, no qual os participantes ficam enjaulados diante de milhões de espectadores com sua imagem sendo explorada e sua intimidade e privacidade sendo invadidas, numa verdadeira afronta aos seus direitos e garantias fundamentais.
Mas desta vez, venho para falar da falácia na "seleção" dos personagens e na necessidade da televisão educar e de promover a inclusão social.
Estamos na nona versão do programa, com seus requintes de sadismo e crueldade, que os espectadores assistem diretamente de seus lares. Outro dia passou na TV o filme "Gladiador" com Russel Crowe que achei "fichinha" perto da pressão que se sofre ao assistir ao BBB...
Quem não ficou aborrecido e penalizado ao vivenciar o drama do jogador Leonardo, surtando por sofrer de claustrofobia, quando submetido ao "castigo" de ficar preso em um quarto todo branco, juntamente com mais dois participantes (um deles seu algoz), cuja única porta de saída eram um botão e uma sirene que o levariam à eliminação do jogo???? Pois é... a "vida" foi cruel com o rapaz. Mas tudo pela audiência...
Tento me lembrar das primeiras versões do programa: havia um plantel de participantes supostamente escolhido aleatoriamente, sem que fosse levado em conta qualquer atributo físico, origem social, nível intelectual ou região de procedência. Acabava por ser uma mistura interessante, com temperos no mínimo engraçados. Pelo menos havia uma sensação de realismo...
Conforme o tempo foi passando e as edições acontecendo, fui verificando a ocorrência de algumas mudanças: corpos perfeitos ou quase perfeitos e um culto quase aparente à sexualidade e à beleza.
As câmeras deixaram de captar as conversas de pé de ouvido para captar aquelas na calada da noite; passou-se a enfatizar os peitos, bundas, coxas e sungas ao invés das alegres mesas de almoço...
A tônica passou a ser a das roupas curtíssimas, saltos altos, muito silicone, dorsos sempre nús, tatuagens recém estampadas, músculos minuciosamente esculpidos em academias e corpos sempre estrategicamente posicionados diante das câmeras.
Mas, para tanto, mudaram também os personagens... e digo personagens propositalmente. Os que deveriam "viver" dentro da casa, passaram a "atuar" dentro da casa e o programa deixou de ser um reality show.
Que realidade é essa em que num país onde a maioria é pobre, muitos de cor parda ou negra, muitos obesos, vários carecas e ainda há uma considerável população de pessoas pequeninas (anões ou aqueles chamados no longínquo norte do País de "Gabirús), só se observa pessoas altas, esguias, brancas, de cabelos na maioria louros (embora alguns alí sejam bem questionáveis e fruto de muito alisamento...), bem nutridos, na média com excelente instrução, etc., etc.???
Penso que há algo de podre no Reino da Dinamarca... definitivamente a "casa" não representa nenhuma "realidade". Poderia até representar a realidade de um país como a Suécia ou como a Finlândia, mas o que vemos alí não é o Brasil, o nosso Brasil, não obstante, de forma maldosa algum débil mental tenha inovado e criado "o lado pobre da casa"...
Penso que um programa com tamanha audiência seria mais interessante se fosse mais focado na inclusão social. A coisa era muito melhor quando havia um gorducho que durante o confinamento fazia sua dieta. Ou quando uma moça mais simplória adquiria o salutar hábito da leitura. Ou quando um careca aprendia a utilizar protetor solar no seu telhado. Ou se um baixinho ou anão aprendesse a fazer bom uso de sua baixa estatura e demonstrasse ao País que é um ser humano absolutamente normal e apto à vida em sociedade e não se trata de uma atração circense.
Hoje, os personagens que entram na casa, são os mesmos que saem, sem tirar nem por, sem qualquer evolução ou crescimento. Não há mais exemplos. Desperdiça-se oportunidades de ensinar...
Por isso, minha insistência em promover-se a inclusão social e o título ao post: onde estão os obesos, os carecas e os anões?
São tipos que, integrantes da sociedade em geral - inclusive a brasileira - geralmente, são objeto de chacota e exclusão e, em um programa que se diz um "reality show", poderiam aparecer.
Não que eu esteja sugerindo que nas próximas edições do programa hajam "amostras" de minorias. Longe disso, mas que ao menos, na seleção se faça ingressar na casa pessoas - e não atores - mais afinados com a realidade brasileira.
É risível ter num BBB apenas um negro e um casal de idosos; e não haver nenhum obeso, nenhum careca e nenhum baixinho (anão talvez fosse exagero, mas serve o exemplo)...
E, analisando esta situação, passo a pensar no preconceito que, efetivamente é enraigado no Brasil. Aliás, essas pessoas (obesos, carecas e baixinhos ou anões) que já possuem alguma dificuldade, merecem ser incluídas socialmente, embora ridicularizadas em vários momentos de suas vidas.
São cidadãos e como tal protegidos pela legislação aplicável à espécie, eis que dotados de total capacidade jurídica, embora com algumas pequenas restrições de natureza física.
Aliás, é engraçado que a tal Vovó Naná, ainda encarcerada na "casa mais vigiada do Brasil", tenha manifestado claro racismo contra o jogador Leonardo, quando fazendo menção ao seu judaísmo, teria dito que "do outro lado da casa falta fé, já que o Léo tem religião diferente da nossa, porque ele é judeu". No mínimo estranho que alguém, em pleno Século XXI, manifeste idéia tão retrógada e afinada com as masmorras da Inquisição.
Mas voltando aos gorduchos, carecas e baixinhos/anões, a verdade é que essas pessoas que, entendo são excluídas do BBB, enquanto tentam levar vida normal, colecionam histórias de preconceito, quase sempre vinculados ao escárnio e a situações comicas. Penso que o importante é a inclusão social dessas pessoas dotadas das mais diversas capacidades.
Não é porque alguém é "baixo para seu peso", por exemplo, que não pode participar de um reality show. Talvez não vença uma prova de resistência, mas certamente seus predicados serão observados em outras atividades.
Ou uma pessoa afetada pelo nanismo. Porque não poderia participar do BBB? O fato é que ninguém está a salvo do nanismo. Ou seja, qualquer pessoa pode ter um filho anão. O nanismo é uma mutação genética. Existem mais de 80 tipos e 200 subtipos da doença, mas a mais comum é a acondroplasia. Segundo a dra. Chong Ae Kim, chefe da unidade de genética do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, como a mutação é aleatória, qualquer casal pode ter um filho com a doença, mas fatores como a idade avançada do pai podem aumentar as chances de um casal normal ter um filho anão. Por outro lado, um casal anão também tem chance de ter um filho normal. "O gene é dominante, portanto, um casal com a doença tem 25% de chance de ter um filho normal", afirma Kim.
O IBGE não tem um levantamento de quantas pessoas têm a anomalia no Brasil, mas a medicina estima que entre 15 mil e 26 mil crianças nascidas vivas, uma tem acondroplasia. Se estimarmos que um em 20 mil bebês tem a doença no Brasil, seriam cerca de 9.500 anões no país.
Um caso real: hoje adolescente, Maria Rita está no 2º colegial do colégio Objetivo, faz equitação e aula de jazz. "Conheci muitos anões pela Internet, temos uma comunidade no Orkut e isso me sustenta, mas não tenho preferência por amigos altos ou baixos". No Orkut, existem mais de 500 comunidades relacionadas ao nanismo. Nem todas trazem um mote amigável. "É a cultura do circo", lembra o pai de Maria Rita, Hélio, que é um dos coordenadores da "Gente Pequena", entidade que congrega pessoas pequenas e que promove sua inclusão social.
Mas os pequeninos já alçam seu lugar ao sol. Um outro exemplo é o do ator que interpretou o Robinho no programa "Pânico" da Rede TV (aquele do "Pedala Robinho"), Nestor Bertolino Neto, 39 anos, 1,20 m, discorda. "Isso só vem ajudar a gente", afirma, "antes da TV eu sofria discriminação duas vezes: por ser anão e por ser negro". No mundo artístico, ele se diz realizado. "Minha vida mudou, eu sou tratado de forma boa, conquistei valor com o meu talento". Mesmo com o quadro "pedala, Robinho" extinto, Nestor se diz "muito feliz" com suas atuações na TV e em eventos —na maioria das vezes ainda interpreta Robinho. "O pessoal brinca de 'pedala' com todo mundo, independente de ser anão. Isso não tem nada a ver".
Um outro exemplo de superação ocorreu recentemente com o recém-fundado time de futebol “Gigante do Norte” em Belém do Pará. É o primeiro time do Brasil formado somente por anões. O maior dos quinze jogadores tem 1,32m, o mais baixo, conhecido como Robinho, tem 1,10m, 62 cm a menos que o craque do Real Madrid com o mesmo apelido. Porém, o menor jogador do “Gigante” não é o único que é conhecido por nomes de jogadores consagrados. O time paraense ainda conta com Romário, o lateral Roberto Carlos e o artilheiro Wagner Love.
Assim, se um pequenino pode ser artista ou jogador de futebol, porque não pode participar do BBB? Não ficaria bem para a poderosa Globo, certo? Melhor colocar um bonitão na casa... certamente o anão ou anã não vai render publicidade ou clics no "Paparazzo"...
O fato é que os excluídos - que exemplificamos nas pessoas dos obesos, carecas e anões - têm o direito de ser incluídos. São parte da realidade do nosso Brasil. Não é porque não se encaixam nos "padrões" de beleza, que não podem ser bons jogadores, inteligentes, confiáveis, estrategistas, agradáveis, bondosos, fraternos, trabalhadores, possuidores de senso crítico e de equipe e acima de tudo, detentores de uma vida absolutamente normal, adaptados à sua realidade apenas um pouco diferente, mas essencialmente igual à de qualquer outra pessoa.
Porque a Globo não promove a inclusão social, permitindo a quaisquer pessoas viver seus sonhos? Muitas vezes têm capacidades que os "grandes" seres não possuem. Muitas vezes conseguem desempenhar suas tarefas tão bem ou melhor do que as pessoas "padronizadas", até mesmo porque sua força de vontade é extrema.
Porque não permitir que sejam incluídos socialmente?
É isso.

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