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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O "Caminho das Índias" e o Bullying

Basta ligar a televisão no horário nobre para se ter uma lição do que é errado aprender.
Sou um crítico contumaz da televisão aberta, em especial dos programas destinados ao público adolescente, que nada trazem de positivo e, ao contrário, incentivam nossos jovens a práticas nada ortodoxas.
Noveletas, filmes, shows, clipes que muitas vezes incitam a violência, consumo de entorpecentes, revolta e sexo casual sem proteção, são uma constante. Programação digna de preocupação...
Não que eu seja piegas a ponto de criticar totalmente a televisão como se fosse “obra do demônio”, mas o faço criticando muitas das atrações exibidas que, efetivamente, mereceriam ser censuradas.
Vejamos, por exemplo a atual "novela das oito" que não é mais "das oito", mas "das nove". Possui vários núcleos: um núcleo hindú que nos transmite uma idéia absolutamente fantasiosa e falaciosa sobre o que se passa naquele longínquo país; um núcleo popular, pitoresco, de bairro, meramente cenográfico, em que uma mulher casada, de forma aberta tenta seduzir um adolescente ou em que um rapaz que necessita de cuidados especiais (utilizando-se a terminologia politicamente correta) “rouba” a parceira de dança do médico psiquiatra que administra a clínica onde se submete a tratamento; e um núcleo “rico”, onde toda espécie de picaretagem, falcatrua, tramóia e condutas impróprias são cometidas, tais como: adultério praticado pela melhor amiga da moça; deslealdade profissional; concorrência desleal; sedução de menor; violência doméstica; assédio moral; etc., etc.
Mas, o que mais chama a atenção, é o bullying praticado pelo personagem “Zeca” e seu bando contra o bom garoto “Indra”, de origem hindú, de bons costumes, mas que de qualquer forma, penso que ainda será seduzido, eis que é objeto do desejo da espivitada “Dona Norminha”...
Bulying... bullying... prática de nome difícil, mas que é mais comum do que se imagina, especialmente quando estimulada pela televisão. Pode até ser que haja o lado “educativo” da novela, mas, pelo que tenho visto nas cenas apresentadas, há um pai – absolutamente retardado e truculento por sinal – que dá mão forte a seu agressivo filho, inclusive estimulando-o a seguir em suas práticas predatórias, preconceituosas e agressivas até mesmo em face de suas professoras, praticando crimes que se quedam, no decorrer da novela, impunes.
Não tenho dúvidas de que, mais cedo, mais tarde, haverá uma reviravolta neste cenário, impondo-se a estes “vilões” as merecidas penalidades, mas, enquanto não acontece “a vez do mocinho”, o “bandido” vai entrando e aparecendo em milhões de lares brasileiros...
Mas o que ocorre? O bom garoto Indra é constantemente alvo de chacotas, agressões físicas e morais por parte de Zeca e seus asseclas. Indra está sendo vítima de um tipo de violência psicológica ou bullying. Bullying é uma palavra inglesa que significa usar o poder ou força para intimidar, excluir, implicar, humilhar, não dar atenção, fazer pouco caso, e perseguir os outros. Ocorre com mais freqüência no ambiente escolar. Assim, numa escola, uma criança ou jovem pode ser considerada “escrava” ou “inferior” por outras chefiadas por um aluno-líder, e, um adolescente pode ser obrigado a dar dinheiro, submeter-se ou subjugar-se a colegas mais velhos e fisicamente mais fortes, caso contrário, sofre algum tipo de violência.
Os professores também não estão vacinados contra o bullying.
Como se não bastasse sofrer uma grave fobia escolar que o pode impedir de trabalhar, um professor ainda pode ser obrigado a suportar discriminação, humilhação e ameaças veladas de alunos insensíveis, invejosos e vingativos.
Ao sofrer a violência do tipo bullying, tanto crianças como os adultos, sozinhos, não têm como se defender. Os colegas, embora digam repudiar esse tipo de violência psicológica e sentirem pena, declaram que nada podem fazer para defendê-los, com medo de serem a próxima vítima.
Muitas pessoas vítimas de bullying desenvolvem medo, pânico, depressão, distúrbios psicossomáticos e geralmente evitam retornar à escola quando esta nada faz em defesa da vítima. A fobia escolar geralmente tem como causa algum tipo de violência psicológica.
Também faz parte dessa violência impor à vítima o silêncio, isto é, ela não pode denunciar à direção da escola nem aos pais, sob pena de piorar sua condição de discriminada. Pais e professores só ficam sabendo do problema através dos efeitos e danos causados, como a resistência em voltar à escola, queda de rendimento escolar, retraimento, depressão, distúrbios psicossomáticos, fobias, etc.
No âmbito universitário não são raros os casos de mestrandos e doutorandos, no decorrer de sua pesquisa, serem vítimas de várias formas de pressão psicológica, normais, como os prazos de entrega dos trabalhos, falta de dinheiro para continuar a pesquisa, falta de apoio do orientador, familiares, colegas e amigos. E, anormais, como o assédio moral, bullying, etc. O bullying tem o poder levar o pesquisador ao travamento de sua produção intelectual, além de causar danos à sua existência cotidiana. Conheço um caso de um doutorando que, quase finalizando sua tese na área de direito teve que lidar com a adversidade de seu orientador adoecer, sendo forçado a escolher novo orientador que discordou da linha de pesquisa adotada, muito embora, anteriormente, a tivesse aprovado quando da apresentação do projeto de tese. Tem o doutorando agora o mais absoluto receio de levar seu trabalho à banca examinadora, em razão de não saber se seu próprio orientador irá aprová-lo ou não, embora já o tivesse refeito por duas vezes e, praticamente, sua tese de convicção esteja mutilada face às intervenções havidas... o examinando está travado! O que está ocorrendo??? Bullying...
De fato, há casos de suicídio de pessoas que não suportaram tamanha pressão psicológica advindas do bullying. Talvez o pior efeito da pressão sofrida nos casos de bullying é a vítima se sentir condenada à “inexistência”, ou à “invisibilidade”, geralmente levadas a cabo por grupo que combina entre si ignorar um colega, fazer de conta que ele não existe, desqualificá-lo na sua competência intelectual, ou rejeitar um pedido seu, etc. Há casos em que esse tipo de vítima passa a sofrer tão baixa auto-estima que nem sequer tem forças para desabafar com alguém.
Por outro lado, existem casos em que a vítima aprende a conviver com a situação se tornando uma voluntária servil do dominador.
No exemplo da novela, o jovem Indra reage de maneira bastante positiva ao bullying: com base nos ensinamentos de Mahatma Gandhi, apresenta apenas uma resistência pacífica na forma da filosofia do "Satyagraha" freqüentemente traduzido como "o caminho da verdade" ou "a busca da verdade", que também inspirou gerações de ativistas democráticos e anti-racismo, incluindo Martin Luther King e Nelson Mandela. Freqüentemente Gandhi afirmava a simplicidade de seus valores, derivados da crença tradicional hindu: verdade (satya) e não-violência (ahimsa).
Assim, ao que tudo indica, Indra não é uma vítima perdida do bullying, mas apenas resiste de forma não comum entre os jovens, respondendo à violência sem violência. Mas enquanto as posições do jovem não são compreendidas pela maioria da população ou do público que assiste às novelas, Zeca segue em sua festa de perturbar o rapaz “do bem”, e, infelizmente, servindo de exemplo a muitos outros meninos que consideram ideal ou "legal" ser “o valentão”. Que o digam os jovens ligados ao narcotráfico... Certamente têm em Zeca seu ídolo e em Indra um “boiola que não sabe se defender" (sic).
De qualquer forma, o que se deve fazer quando se percebe que o filho está sendo vítima de bullying? Os pais devem apoiar o filho, abrindo espaço para ele falar sobre o sofrimento de estar sendo rejeitado pelos colegas. “Obrigar o filho a enfrentar os agressores pode não ser a melhor solução, visto que ele está fragilizado, ou seja, corre o risco de sofrer uma frustração ainda maior”, diz Lopes Neto.
Mas, fazer de conta que não existe bullying ou outro tipo de violência psicológica na escola é, no fundo, autorizar a prática de mais violência. É preciso estar atento para o risco de suicídio onde a vítima sem auto-estima alucina tal ato como saída honrosa para o seu sofrimento. Esta é uma atitude freqüentemente usada no Japão.
Quando a violência ocorre na escola cabe aos pais conversar com a direção. É dever desta instituição ensinar os conhecimentos e promover a inclusão social e psicológica. A escola e a universidade jamais devem fazer vistas grossas sobre os casos de intolerância de violência psicológica ou física. A escola, principalmente, deve ter uma atitude preventiva contra o bullying, começando pela conscientização e preparação de professores, funcionários, pais e alunos. Por um lado, é preciso apoiar as crianças vítimas e, por outro, é imprescindível fazer um trabalho especial com as pessoas propensas para cometer violência contra os colegas, professores e funcionários.
Os pais e professores devem estar atentos sobre a possibilidade real de conviver com uma vítima silenciosa de qualquer tipo de violência, como também conviver com o(s) agente(s) dessa violência. Destarte, se a instituição de ensino não tomar providências, cabe aos pais ou responsáveis denunciar a violência ao Conselho Tutelar, podendo até ajuizar uma ação em face do agressor pleiteando indenização por danos materiais e morais, o que muitas vezes é a única saída para que cesse a violência. Nesta toada já tive a oportunidade de observar casos em que pais de uma criança vítima de bullying ajuizaram medida cautelar objetivando a mantença de distância, sob responsabilidade da escola, da criança agressiva. E assim foi feito, após concedida a medida liminar...
Criança ou adolescente que repete atos de intolerância e de violência para com o próximo pode estar sendo “autorizada” pelos pais que a vêem positivamente como “esperta”, “machão”, “bonzão”, “fodão”, etc. No caso da escola retratada na novela, esta não toma qualquer providência eficaz. Os professores e diretora amedrontam-se diante das atitudes predatórias dos alunos e de um pai, todos praticantes do bullying. Penso ser um péssimo exemplo trazido pela maior emissora do País...
Penso aqui estar não apenas criticando um folhetim que é exibido diariamente a milhões de pessoas, mas também estar fazendo um sério alerta acerca de uma prática cada vez mais comum e que, com a devida venia, penso estar sendo estimulada pela televisão.
É isso.

Um comentário:

Natalix disse...

Diga-se de passagem, é uma novela de temática hindu onde não há cultura hindu.