html Blog do Scheinman: Ensaio sobre a amizade genuína

domingo, 8 de março de 2009

Ensaio sobre a amizade genuína

Hoje estava mais uma vez refletindo sobre amizades genuínas. Na verdade ando revendo uma série de conceitos e a amizade é um desses conceitos pétreos que nunca temos coragem de questionar. Sempre pensamos que fulano ou beltrano é nosso amigo e ponto. Não pensamos mais no assunto.
Mas acho importante cutucarmos fundo essa idéia para que evitemos "cair do cavalo" mais tarde. Portanto, vamos lá. Esclareço que meu texto não tem qualquer rigor científico e não passa de mera reflexão de uma pessoa idealista e preocupada com a vida.
Nessas minhas conjecturas acabei encontrando um interessante texto de Arthur Schopenhauer que transcrevo abaixo que nos dá uma boa idéia do que vem a ser amizade... mas não é só isso.
Fui atrás dos conceitos, definições do conceito de amizade. Do que é a amizade genuína... do que é esse sentimento do qual nós achamos depender para nossa subsistencia. Vejam abaixo minhas conclusões. Acho que podem ser vir para alguma coisa. Primeiro vem o texto de Schopenhauer:
"Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, também no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade autêntica, circulam as suas demonstrações exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural possível. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se há pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um cão leal do que a cem daquelas demonstações e gestos. A amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o egoísmo próprio à natureza humana é tão contrário a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence àquelas coisas que não sabemos se são mera fábula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, há muitas relações entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos egoístas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um grão daquela amizade verdadeira e genuína, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa razão, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfeições. Elas elevam-se muito acima dos vínculos ordinários, cuja natureza é tal, que não trocaríamos mais nenhuma palavra com a maioria dos nossos bons conhecidos, se ouvíssemos como falam de nós na nossa ausência."
Mas só o texto de Schopenhauer não me satisfez. Tem o seu tom de romantismo. O seu sentido figurado. Hoje não mais me satisfaço com palavras que apenas servem de bálsamo passageiro para a alma. Quis ir mais fundo...
Com tristeza verifico que a amizade está em declínio e a solidão está em ascensão. Qualquer um pode constatar isso no mundo contemporâneo. Os laços humanos tornam-se cada vez mais frágeis e efêmeros porque vivemos numa época em que tudo se “liquefaz”, usando a imagem de Z. Bauman. Hoje, antes mesmo que uma amizade se solidifique, ela está condenada a se evaporar frustrando a intenção sincera dos pretensos amigos. O amor também facilmente se evapora.
Aliás, a própria vida escorre, rapidamente, sem que possamos aproveitá-la intensamente como parecia acontecer com os antigos. Vivemos a época das grandes manifestações de massa, das grandes multidões que acorrem aos estádios para assistir ao futebol, ao culto religioso, à banda de rock, ao partido político ou ao carisma de um falso ídolo, mas nunca nos sentimos tão só e sem vínculos autênticos de amizade. Nos dias de hoje já não importa ter amizades autênticas, mas relacionamentos úteis. O outro é avaliado para ser nosso amigo instrumental, em função de interesses mesquinhos. Importa menos um encontro consumatório, para conversar-por-conversar, do que estar conectado na rede, para trocar e-mails, participar de um chat, ser incluído num grupo do orkut, ou simplesmente jogar, jogar e jogar em rede com os “amigos virtuais”. A conexão da Internet ou do celular promete um especial mais-gozar do que estar “ao vivo” com o outro. Ficar face-a-face está ficando cada vez menos necessário. Neste sentido, não posso deixar de trazer Cícero que ensina que a amizade verdadeira é desinteressada: ela não fica, severa, a controlar se está dando mais do que recebeu. Por isso chamam de "consumatória" a verdadeira amizade, porque, os amigos convivem de modo desinteressado e sem cálculo sobre a própria relação. Evidentemente que existe um interesse entre os amigos: a ascese de ambos.
Amigos não sofrem inveja um do outro, mas sim, admiração. Quando Montaigne fala de sua amizade de E. La Boétie, demonstra admiração. Conceitua a amizade como um encontro existencial de almas que se entendem, muitas vezes não lhes percebendo sequer a linha de demarcação entre cada personalidade. (Montaigne. Ensaios: cap. XXVIII).
Cresce o número de pessoas que se sente intoxicada de pessoas, daí cada um inventa uma fuga: um relacionamento de faz-de-conta, contatos apenas virtuais, arrumar um bichinho de estimação, viver em algum lugar solitário. J. D. Salinger, o autor de “O apanhador no campo de centeio”, numa rara e resistente entrevista em 2004, preferiu viver solitário nas montanhas. Sua halitose, seu jeito de ser e o sucesso do livro contribuíram para reforçar sua tendência anti social. A atitude avessa às pessoas não é adotada apenas por escritores e cientistas; costuma fazer parte de pessoas que vivem o cotidiano acadêmico, não obstante o imperativo de eles terem que conviver com alunos e colegas. “Seria bom trabalhar numa universidade que não tivesse alunos”, li uma vez uma entrevista de um pesquisador que odeia ensinar.
Há aqueles que substituem os amigos pelos “irmãos em Marx”, ou “irmãozinhos da psicanálise segundo Lacan”. Há os eruditos que tentam convencer de que com a fragmentação irreversível de nossa época resta cada um ficar na sua, em casa, e “conversar” com Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomas de Aquino, apenas com gente que abre o caminho da sabedoria e da ascese. Segundo esses eruditos “é mais proveitoso conversar com amigos, pensadores, do que com especialistas de nossa época”.
Hoje é fácil descartar amizades potenciais. A falta de disponibilidade para a amizade verdadeira é tamanha que torna-se visível a resistência para continuar uma conversa que mal teve um início. Não raro, as poucas amizades que ousam ultrapassar a barreira do estereótipo precisam vencer as contingências que concorrem para descartá-las, ou podem simplesmente ser toleradas por interesses profissionais, institucionais, políticos, acadêmicos, comunitários, ou mesmo familiares. Entretanto, segundo Alberoni (1993), essas indicações, acima, nada têm a ver com o conceito de amizade.
Colegas de profissão não são amigos. Uma das primeiras frustrações que tive na vida profissional enquanto estagiário no departamento jurídico de um grande banco foi reconhecer que entre os "semoventes do direito" não existia verdadeira amizade, mas sim lealdade e interesse na “causa”. Era algo muito parecido com a militância política de esquerda, enquanto na clandestinidade.
Na verdade, alguém disse que – especialmente em período de crise política, ou de CPIs – a política não só separa amigos de inimigos, separa também amigos de amigos e, pior, tende a juntar inimigos conforme interesses de momento. (Dissidentes do PT, hoje, parecem “amigos” da direita, contra o governo Lula). Cavalcanti (1984) observa que, na militância do clandestino PCB, havia uma vida “fora” do círculo partidário “sujeita a uma dinâmica mais rica e diversificada, contrastando com a "ficção" elaborada por suas interpretações”. Há uma maior probabilidade de surgimento de amizades verdadeiras “fora” da militância política do que “dentro”, visto ser este um ambiente marcado pela dessimetria entre “militantes” e dirigentes”.
De fato, onde as relações são instrumentais (como ocorre com os "colegas de trabalho"), não existe verdadeira amizade. As amizades se sustentam apenas onde as relações são consumatórias. A política é o melhor exemplo de relações instrumentais, porque, nela, sempre existe um terceiro elemento que condiciona as relações humanas, que são: a causa, o interesse do partido que cada um serve, ser um “não-sujeito”, etc. Na amizade – e no amor, também – sobressai o impulso natural e o sentido consumatório da relação de querer estar com outro, e basta! Embora a amizade e o amor tenham os seus próprios e camuflados interesses egoístas, a finalidade de ambos é a sustentação do vínculo entre as pessoas que se quer bem.
Entretanto, a pseudo amizade dos militantes de uma causa política, religiosa, ou cultural, tem uma finalidade meramente instrumental, assim como nas amizades eminentemente profissionais, porque o outro só existe como “objeto” de uso para conseguir êxito numa causa abstrata ou concreta. (Epicuro, na antiguidade grega, teria sido pioneiro ao observar que a amizade nada tem a ver com o vínculo político ou religioso (estendo esse vínculo ao profissional...).
Mas pode ser condição para a construção da subjetividade desalienada e uma personalidade preparada para enfrentar as falsas opiniões e as tiranias do mundo.
Existe uma equivalência no tratamento entre “camaradas”, “companheiros” da esquerda política e os “colegas” dos nossos escritórios. Na militância política da esquerda dogmática a amizade é vista como um valor da burguesia tal como o amor e a própria democracia. O tratamento de “camarada” ("továrish" da língua russa) ou de “companheiro” (do espanhol americano) nada tem do sentido clássico de amigo. O camarada ou companheiro é alguém incluso na militância, na luta política, ou seja, a relação jamais é direta, antes passa pela “autorização” do grande Outro (o partido, a causa, o catecismo marxista, etc). Nesse sentido, ambos se aproximam do sentido de "parceiro”, que é de inspiração negocial, tão comum, no exercício de nossa nobre profissão da advocacia, que, também renega o valor da amizade. Aliás, com com muita propriedade Descartes distingue afeição e devoção da amizade. Temos afeição a um bichinho, uma casa, um carro, ou seja, apreciamos algo neles, porém menos do que nós mesmos. A devoção é ter um sentimento especial para com alguém que ocupa uma posição superior a nós. Temos afeição a nossos pais, a um governante, a um rei, a Deus a um amigo consumatório, a ídolo do momento, a um revolucionário, e até a um país ou a uma causa. Contudo, o "parceiro", amigo por interesse, fica num lugar entre a afeição e a devoção. Pelo que vi até hoje em meu caminho pela advocacia, só vi afeição entre poucos colegas de escritório... parcerias sim, respeito sim, interesse sim, mas amor desinteressado e abnegado nunca vi não.
Muito bem. Até aqui cheguei a uma digressão sobre amizades autênticas. Mas ainda não compreendo exatamente o que é amizade. O que é a amizade pura e simples? Vou tentar, em poucas palavras viajar pela Grécia antiga, a buscar inspiração nesta empreitada...
Efetivamente, os gregos antigos são fonte de inspiração sobre a amizade. Para Epicuro (341-270 a.C) “embora não altere o sofrimento nem possa evitar a morte, (a amizade ou "philia") ajuda a suportá-la (...). Ainda, a "philia" é o instrumento indispensável ao artesanato ético interior, pois a presença do amigo auxilia a procura e a manutenção da sabedoria...” (Pessanha, 1992).
Epicuro foi o sábio que mais teve amigos, na antiguidade, tamanho foi o número deles que vieram saudá-lo no seu funeral. Embora fosse um homem de saúde frágil, Epicuro, morreu feliz, brindando aos seus amigos com uma taça de vinho.
Sócrates (469-399 a.C.) também não se cansava de dizer que o maior bem que tinha na vida eram os amigos. Entretanto, sua ferina ironia, teria angariado para si muitos inimigos, dentre eles os sofistas. Uma de suas preocupações, como filósofo, era ensinar aos discípulos como fazer e como manter amizade, dado que existem pessoas que facilmente iniciam uma, mas não sabem como mantê-la.
Platão, seu principal discípulo, herdou do mestre sua dedicação para com esse assunto, fazendo vários diálogos elogiando a amizade.
Mas coube a Aristóteles elevar a amizade à categoria de virtude, que como tal é uma coisa absolutamente necessária para a vida – mais exatamente, para viver a vida com sentido de felicidade (gr.: eudaimonia). “Ainda que possuísse todos os bens materiais, um homem sem amigos não pode se feliz”, diz.
Homem do nosso tempo, o sociólogo italiano Alberoni, observa com propriedade que amizade só é possível entre “iguais”, ou entre aqueles que vivem a mesma condição humana. Portanto, é praticamente impossível existir amizade entre patrão e empregado, entre concorrentes, entre professor e aluno, entre médico e paciente, entre psicanalista e analisando, entre líder e liderados, entre sargento e soldado, entre uma autoridade e os seus subalternos, etc., porque sendo relações dessimétricas é natural que exista entre tais pessoas, respeito, veneração, temor reverencial, adulação, puxa saquismo, mas não amizade genuína. Para que alguma dessas relações vire uma amizade verdadeira há que ser superada tal dessimetria, além delas passarem por provas impostas pelas circunstâncias da própria vida.
Malebranche lembrou que as atitudes de adulação nada têm a ver com a amizade. O aluno que adula o professor, longe de promover a relação, reforça o narcisismo que todo professor não revela, mas se alimenta dele para exercer bem o seu ofício. A experiência mostra que o aluno adulador tem outros interesses facilmente adivinhados. Os discípulos que seguem a orientação de um “grande mestre” vão além da adulação quando almejam levar suas idéias para o ato, mas não fundam uma verdadeira amizade. Parece que o enamoramento e a amizade são de naturezas diferentes, embora existam muitos pontos de semelhança entre ambos, tais como: confiança, desejo de estar junto, agradar o outro, trocar pontos de vista, etc.
É mais sábio e gratificante para todo o ser humano ser levado por esse “impulso natural” que é a amizade do que ser movido por interesses supostamente elevados, onde o outro é reduzido a um mero objeto-instrumento de uma causa.
Acho que em suma é isso. Amizade genuína é aquela que vem com desinteresse, com afeição, admiração e devoção; sem que sejamos mero objeto-instrumento de uma causa. Fico meio encimesmado com esse post. Não sei quantos amigos de verdade tenho, mas certamente não são muitos não...
Finalizo com uma observação do escritor José Carlos Leal: “Desconfie de uma pessoa que chama a todos de amigos. Porque, se ele chama a todos de amigos, provavelmente não se sente amigo de todos”.
Tá aí.

2 comentários:

Francisco Castro disse...

Olá, Maurício!

Um magnífico texto sobre um tema de grande importância alta complexidade. A amizade é algo que não se pode ter certeza apenas por achar que ela exista, ela tem que ser provada para se acreditar verdadeiramente nela. Em muitas situações, pensamos que as nossas amizades são verdadeiras, mas quando precisamos delas descobrimos, de fato, não eram amizades, mas apenas uma imaginação.

Devemos cultivar as amizades verdadeiras, essas valem ouro porque podemos contar quando precisamos.

Abraços

Francisco Castro

Daniela Figueiredo disse...

Maurício, adoro textos assim, que me fazem refletir. Ja passei pela fase anti-social que falaste, uma forma de fugir da realidade. Era uma vontade de não querer sair, mas tive amigos que entenderam (embora reclamassem muito e julgassem a fase de reclusão que eu estava passando). Hoje saio com meus amigos reais, tenho os virtuais e sinto falta de badalação quando fico muito tempo em casa. Tenho amigas de mais de 15 anos, claro que umas eu me sinto mais a vontade de falar das minhas coisas que outras, mas sempre tem a amiga-irmã, sem interesses de convivência, apenas amigas, como se da família. Uma época nos afastamos devido às fases diferentes em que cada uma estava vivendo, mas continuamos amigas. A amizade genuína existe, mas não são muitos que podemos confiar.
Gosto muito dos teus textos, estou um pouco afastada, mas sempre que dá visito os amigos.
Beijos.