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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Roger, le Tartuffe

Tartufo (em francês Le Tartuffe) é uma das mais célebres comédias de Molière, e uma das mais famosas da língua francesa em todos os tempos. Sua primeira encenação data de 1664 e foi quase que imediatamente censurada pelos devotos religiosos que, no texto, foram retratados na personagem-título como hipócritas e dissimulados.

Os devotos sentiram-se ofendidos, e a peça quase foi proibida por esta razão, pelos tribunais do rei Luis XIV de França, onde tinham grande influência.

Na língua portuguesa, o termo tartufo, como em outro idiomas, passou a ter a acepção de pessoa hipócrita ou falso religioso, originando ainda uma série de derivados como tartufice, tartúfico ou ainda o verbo tartuficar - significando enganar, ludibriar com atos de tartufice. Talvez signifique o mesmo que "santo do pau ôco"!

No famoso texto, Molière utiliza elementos de sofisticada linguagem cômica, abordando com mordacidade as relações humanas que envolvem a religião, o poder e a ascensão social.

Utilizando-se como mote a aristocracia francesa, em luta por manter seus privilégios, a burguesia ascendente, ávida por ampliar seu status quo e ainda o papel intrigante dos religiosos, é, no entanto, através da popular e sábia "Dorina", a empregada, que Molière desconstrói a hipocrisia de estrutura social da 'época, desmascarando o farsante "Tartufo".

Este personagem é símbolo dessa bem comportada estrutura, usando-a a seu bel-prazer, a seu único e exclusivo proveito, sendo capaz de mentir, roubar, fraudar, especular, transgredir normalmente com o único objetivo de granjear mais privilégios. E tudo em nome de Deus.

A peça, apesar de retratar uma situação que antecedeu a ascensão da burguesia, mantém-se atual ao denunciar males eternos e "universais", como a corrupção, a hipocrisia religiosa, a ocupação de cargos de mando e relevo por espertalhões.

Como personagens, Molière traz Madame Pernelle, mãe de Orgon, enganada por Tartufo. Orgon, senhor da casa, esposo de Elmire, enganada por Tartufo. Elmire, esposa de Orgon; chave para se compreender o verdadeiro eu de Tartufo. Damis, filho de Orgon, corteja a irmã de Valère. Mariane, filha de Orgon, noiva de Valère. Valère, noivo de Mariane. Cléante, cunhado de Orgon. Tartufo, falso devoto, que engana Orgon e Mme. Pernelle. Dorine, criado de Mariane, dá o tom cômico à peça, através de comentários sarcásticos e exagerados. Monsieur Loyal, começa como beleguim (agente de polícia); termina a peça como sargento. Un exempt (policial). Flipote, criado de Madame Pernelle. Lawrence, criado de Tartuffe. Argas, amigo de Orgon; confia a este documentos que Tartufo rouba e chantageia Orgon; não possui nenhuma fala, na peça.

O cenário é a Paris de 1660, casa de Orgon.

Para compreender a ferrenha crítica aos falsos religiosos brilhantemente trazida por Molière trago, resumidamente o enredo da peça: Orgon, pessoa muito importante da sociedade parisiense, havia caído sob a influência de Tartufo, um religioso bastante hipócrita, além de ser extremamente inescrupuloso. Na verdade, os únicos que não se dão conta do verdadeiro caráter do espertalhão são Orgon e sua mãe.

Tartufo exagera em sua devoção religiosa, chegando mesmo a ser o diretor espiritual de Orgon. Desde que o vilão passara a residir em sua casa que Orgon segue-lhe todos os conselhos, chegando ao ponto de prometer-lhe a filha em casamento, apesar de a mesma estar noiva de Valère. A jovem Mariane fica bastante infeliz com a decisão paterna, e sua madrasta Elmire tenta desencorajar o embusteiro de suas pretensões matrimoniais. Durante este diálogo, Tartufo tenta seduzir a jovem esposa do velho Orgon, cena esta testemunhada por Damis, filho de Orgon.

Damis relata ao pai o que vira, mas este, longe de acreditar, deserda Damis e decide passar a própria casa para o nome do caloteiro – uma forma de assim forçar o casamento contra o qual todos pareciam tramar. Aumenta a tristeza de Mariane, e Elmire adia a sua assinatura do contrato feito pelo marido. Ela então propõe ao marido que, escondendo-se sob uma mesa, seja ele próprio testemunha do verdadeiro caráter de Tartufo.

Orgon concorda com o estratagema, e ante as palavras de Tartufo para sua mulher, descobre finalmente qual o verdadeiro caráter daquele hipócrita a que tanto confiara, e que sua família sempre tivera razão.

Colocando Tartufo para fora da casa, este porém impõe-se como seu novo proprietário. E Orgon dá-se conta de que depositara com o falso devoto documentos de um amigo, cuja fuga ocultara, comprometendo-o.

A mãe de Orgon vem lhe visitar. Pernelle tem ainda grande admiração por Tartufo, e não se deixa convencer sobre o real caráter dele. Surge então o Sr. Loyal, policial enviado por Tartufo, a fim de avisar que a família tem até o dia seguinte para desocupar o imóvel. Só depois disso Pernelle reconhece que ele é mesmo um caloteiro.

Enquanto a família reunida discute como safar-se daquela situação vexatória, chega Valère, informando que Tartufo entregara ao Rei os documentos que incriminavam Orgon, e este deveria ser preso. Planejam rapidamente uma fuga, mas Tartufo reaparece, desta feita acompanhado por um policial.

Autoritário, o falso amigo expede a ordem para que Orgon seja preso. Mas este, para surpresa de todos, prende o próprio Tartufo: ele era um caloteiro conhecido, tendo já aplicado outros golpes. A doação feita é anulada, e finalmente Orgon permite o casamento de Valère e Mariane.

Mas Tartufo se sai bem, sempre inescrupuloso e sob a proteção de Deus que sempre melifluamente invoca, mas a quem não dedica devoção ou fé alguma.

Acho engraçado como nos vemos sempre cercados de "tartufos" e como eles se dão bem na vida.

Aliás, o que me levou a escrever este post não é simplesmente o fato de sempre termos "tartufos" por perto, mas fatos no mínimo horripilantes que vêm aparecendo com cada vez maior frequência na mídia envolvendo o assédio e abuso sexual cometido por religiosos contra seus fiéis ou por profissionais que utilizando-se de sua “endeusada” pessoa passam a cometer as maiores atrocidades. Não faço aqui menção específica a qualquer espécie de líder religioso ou profissional, podendo a questão referir-se a padres, rabinos, pastores, médiuns espíritas, pais-de-santo, monges de qualquer linhagem, médicos, advogados, engenheiros, dentistas, etc., mas o que me incomoda, efetivamente, são os lobos travestidos de cordeiro que sob o manto de terem maior elevação religiosa, ou aptidões diferentes daquelas das pessoas que os procuram, usam-se de suas funções como profissionais ou líderes espirituais para arregimentar suas presas, tal como o fazia Tartufo de Molière.

Em muitos casos, até mesmo o contato físico que certas religiões ou profissões permitem ou exigem em suas práticas, seus cultos ou cerimônias, facilita o assédio. O líder ou profissional mal intencionado, durante um procedimento qualquer, tocando seu(sua) fiel, cliente ou paciente já passa a ter condições de, como se diz no jargão popular, “sentir o material”, num verdadeiro processo de bolinação, sob o argumento de o estar fazendo em nome de Deus ou sob o argumento de estar exercendo sua profissão. Recentemente um famoso médico foi preso sob a acusação de dezenas de estupros para os quais alegava ser um “enviado de Deus”…

Mas, independentemente da religião, seita, credo, profissão, ocupação ou procedimento de que se fale, todas essas práticas em que se observa a absoluta má-fé do indivíduo, é considerada assédio sexual e até mesmo estupro, sem que haja necessariamente a conjunção carnal.

De fato, como um direito humano fundamental o indivíduo tem o direito de não ser molestado sexualmente por quem quer que seja, sem se falar no aspecto moral-religioso-ético inerente à questão. Com muito mais razão tal princípio deve ser respeitado por alguém que esteja no ministério de qualquer religião, ou no exercício de sua profissão regida por um código deontológico.

Há os códigos de ética e até mesmo a lei que define o assédio sexual no exercício da profissão. No entanto, uma vez que a lei é ampla ao extremo e, no meu entender, apenas exemplificativa, eis que limita o assédio à ocorrência no curso de relação laboral, devemos ter extrema cautela ao aplicá-la, para que não se banalize o crime e se criem “criminosos inocentes”, que agiram de maneira ingênua e despretensiosa, sem que nunca tivesse passado por suas cabeças que estivessem infringindo qualquer norma jurídica, principalmente de Direito Penal. Mas em contra partida há que se enrijecer, como se enrijecido tem o assediador, que se utiliza de sua função para as práticas espúrias como as que vêm sendo relatadas na imprensa envolvendo o médico “enviado de Deus” e “pai” de milhares de crianças que alega ter trazido ao mundo…

De qualquer forma, na exegese razoável do texto legal e a exemplo do que ocorre em outros países e, conforme vem bem entendendo a jurisprudência de nossos tribunais, a conduta limitadamente tipificada no texto legal (já que a lei fala somente no assédio nas relações de trabalho) é ampliada ao assédio sexual cometido por prestadores de serviços sem vínculo empregatício, por profissionais liberais ou cometido por aquele que se beneficia de cargo de confiança superior, tal como o professor, o ministro religioso, etc.

Por outro lado, em muitas circunstâncias, a suposta vítima é quem assedia o líder religioso, talvez por algum desvio, fantasia, paixão, devendo esta responder criminalmente pela conduta imprópria. Mas, pelos depoimentos que temos visto, não é este o caso do homem das pipetas.

Aliás, no mundo em que vivemos, o assédio é praticado tanto por homens como por mulheres. Até mesmo a “traição”, outrora reservada apenas aos homens “aventureiros e safados” (sic), como eram antigamente rotulados, hoje é praticada pelas mulheres, que sem o menor pudor, também podem incorrer no crime de assédio, inclusive de um líder religioso, por mais escabrosa que possa parecer a conduta. Coisa que faria até Nelson Rodrigues corar de vergonha.

Desta forma, tomando o amoral Tartufo como exemplo, em suas sórdidas condutas, devemos considerar a questão do assédio sexual pelos profissionais e ministros religiosos com extremo detalhismo, tomando contra os mesmos as medidas legais pertinentes. As denúncias são importantes para que este crime deixe de acontecer.

E o principal: não devem ser temidas as supostas ameaças de vingança por parte de Deus, dos espíritos, das forças ocultas, do “Esquerdo” ou dos supostos poderes ocultos do assediador religioso, eis que acima de tudo isso há a Lei, tanto dos homens como do Todo Poderoso, por mais “enviado de Deus” que o safado o seja.

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