html Blog do Scheinman: “Caminho das Índias” é a cara do Brasil

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

“Caminho das Índias” é a cara do Brasil

 

Brasileiro tem mesmo memória curta... quando começou a novela o Bahuan era o perseguido intocável, pilantrão que usava do poder do pai de criação para se passar por grã-fino, mas que na verdade mentia escondendo sua real identidade… o cara que sacaneou a ingênua namorada, deflorando-a, deixando-a gravida na terra natal e ainda armando mil sacanagens para humilhar seu sorridente marido…

E no final da novela, passado algum tempo, como se travestido de cordeiro, o ex-intocável conquistou a simpatia do povo que o deseja ver bem na fita, bem ao lado da modernosa mulher amada - que usou de todas as armas e poder possível – como um dos pares românticos montados por Glória Perez que se escafedeu pela Índia no topo de um elefante…  Bem ilógico isso!!! É como se no final de "A Escrava Isaura" esta se apaixonasse pelo malvado Leôncio...

Em que país vivemos?

Será que o escroto do Bahuan tem que acabar bem na novela? Ou o malévolo Zeca, não vai preso ou tomar um tiro depois de ter batido, escorraçado, praticado o mais escabroso bullying de que se tem notícia sem castigo??? Ou seu abobado pai (o do malandro é malandro, mané é mané…) que detonou a imagem dos advogados em cadeia nacional, saiu com seu viés amoral e aético absolutamente consolidado??? Ou a psicopata que seduzindo o carcereiro escapou incólume???

Parece bobagem ficar aqui postando sobre o final da novela do horário nobre. Na verdade, como diz o jargão popular, "o buraco é mais embaixo", já que está aí mais uma evidência de que o brasileiro tem mesmo memória curta.

Quem se lembra do SIVAM (Sistema de Proteção por Radar da Amazônia); da compra de votos durante a campanha da reeleição; das contas correntes em Caymán; do Caso PC Farias (e correlatos, como o empréstimo no Uruguai); da Pasta Rosa (supostas doações ilegais para campanhas políticas); do "Frangogate" em São Paulo; das "doações" do PROER; dos poços do Inocêncio de Oliveira; das Polonetas; do Escândalo da Mandioca; dos "Anões" do Orçamento Federal; da Máfia da Previdência no Rio de Janeiro; da manipulação dos leilões das Teles; dos grampos no Planalto (não confundir com os grampos do BNDES - é tanto grampo que é fácil misturar); da droga nos Aviões da FAB; do uso dos aviões da FAB para Veraneio em Fernando de Noronha (e Deus sabe mais onde); das propinas para os Fiscais da Prefeitura de São Paulo; do porque da renúncia do finado ACM... só pra falar de escândalos que certamente estão apagados da memória de quase todos nós...

Realmente os casos “Bahuan” e “Zeca”, assim como outros tantos passados na inverossímil trama do “hare babaca” nos faz chegar à conclusão sobre a dificuldade dos brasileiros de relembrar acontecimentos políticos; e não só pretéritos, como vigentes. Um exemplo é saber que a maioria da população brasileira não se lembra direito do caso mensalão, ocorrido em 2005.

Mais uma vez esses casos não ocorrem isoladamente. Onde está Fernando Collor, por exemplo? De volta à política. Além disso, o documentário sobre ex-presidentes do Brasil, exibido no Fantástico do ano passado quase transformou Collor num pobre coitado, quando ele disse que pensou em se matar no fim de seu mandato, assim como fez Getúlio Vargas.

Quantas vezes já ouvimos que o brasileiro tem memória curta? Dizem que nós esquecemos de fatos recentes e que essa alienação, amnésia da realidade é uma das responsáveis pela ausência de mudança. Pode até ser verdade, mas não simplesmente esquecemos de uma hora para outra. São fatores que vão renovando nossas idéias. Por que é assim?

É difícil nos concentrarmos num fato e despí-lo profundamente para alcançar uma análise máxima, quando ligamos a TV e descobrimos que aviões foram proibidos de decolar, que aconteceu um acidente na Marginal, que o Ronaldo comeu gato por lebre, que o ibope da novela das oito está perdendo para Record, que o Colgate é recomendado pelos dentistas, que alguém tomou banho nú no BBB; quer dizer, é tanta informação que recebemos, úteis ou não, que fica difícil criar uma imagem nítida da realidade; tudo fica enevoado num emaranhado de notícias que encobre nossas idéias, nossas conclusões.

Os meios de comunicação atuam nesse papel de divulgar massivamente as informações. Muitas desnecessárias, na tentativa de atender a todos os espectadores e conseguir audiência. A mídia tenta cativar, ao mesmo tempo, a dona-de-casa, o empresário, o atleta, o popular, o fofoqueiro etc., lançando acontecimentos e novidades superficiais que vão desde moda à política, numa braçada só.

Penso que, enquanto a TV, jornais, revistas deveriam partir para uma análise profunda e insistente, no sentido de estimular mudanças, sobre os fatos, ficam só derramando novidades, com abordagem sensacionalista e apenas observadora, ou seja, como se em nada pudessem interferir na sociedade e no governo.

Como consequência, ao invés de participar, a população fica inerte, como se acorrentada ao sofá, assistindo a caravana passar como se o seu país fosse um mundo à parte, uma minissérie da Globo.

As coisas vão acontecendo e ficamos parados na estação, acenando ao trem que passa. E qual o efeito disso? Diz a mídia que o povo tem memória curta, quando na verdade é a confusão criada pela própria mídia que gera essa absurda amnésia popular.

O poder de influência da mídia é tão grande que ela poderia muito bem causar um desconforto em proporções nacionais ao grupo que desejasse. Do jeito que vivemos, seguimos a máxima de John Naisbitt, futurólogo americano: “Estamos nos afogando em informação, mas sedentos por conhecimento”.

E, enquanto isso, taí o Bahuan ou o Zeca se dando bem e o estúpido ex-milionário enganado pela vilã se ferrando mais do que todo mundo no final da trama...

Porque não inverter os papéis? Porque a galera gosta mesmo - nas palavras do autor espanhol Vicente Blasco Ibánez - é de "Sangre y Arena"...

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