html Blog do Scheinman: Postagem de feriadão: pra que usar terno no Brasil

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Postagem de feriadão: pra que usar terno no Brasil

Enquanto o deputado Fernando Gabeira procura regulamentar o naturismo no Brasil com o abandono definitivo da tanga, outros seguem fervendo dentro de seus ternos.

Para os descolados, "becas", para os conservadores, "costumes". Para uns "traje completo", contanto que tenha colete, para outros coisa de gente exótica que só usa o colete, a exemplo de nosso Ministro do Meio Ambiente que abandonou os ternos, mas manteve os coletes, na contra-mão da História.

Mas fiquei aqui pensando... acho que estou ocioso demais sem minhas aulas. É... cabeça vazia é a oficina do cramulhão... fiquei pensando: "ternos... ser ou não ser????".

Será que Hamlet usava terno no calor inglês? Usava nada. Ficava mesmo com aquelas roupinhas justas e afeminadas, com muitos tecidos sobrepostos, que, quando tiradas exalavam o mais abjeto "cecê", já que banho era coisa de indígena e perfume era coisa dos nojentos franceses. É... acho que estou ficando biruta... Hamlet nem saberia o que é um terno. Usava mesmo suas túnicas com jabors e babados, calças justas e sapatos com imensas fivelas.

Mas minha reflexão refere-se ao clima brasileiro e o terror de usarmos ternos em plena região tropical. Realmente o Gabeira tem razão. Com nosso clima e o aquecimento global o melhor é andar peladinho da silva, não esquecendo do protetor solar, pois, caso contrário, o monstro vai despelar... Quiçá o projeto de distribuir-se protetor solar pelo SUS ou de quebrar-se a patente dos produtos (essa sugestão é minha pra abaixar o preço...) dê certo, pois, caso contrário, vai ter muito naturista mergulhado em piscina de Caladril.

Às vezes fico agoniado com essa coisa de terno. Coisa de europeu. Herdamos isso de países mais frios. Na verdade, herdamos muitas coisas, já consolidadas em nossas maneiras de vestir, que nada tem a ver com o nosso Brasil.

Veja-se, por exemplo os países do Caribe e América Central, onde o traje de gala oficial para o homem é a chamada "Guayabera" - uma camisa, em geral de mangas longas, de tecido nobre, usada para fora da calça e finamente ornamentada na sua porção frontal - acompanhada, geralmente durante o dia do tradicional chapéu Panamá. Muito mais racional quando se fala de locais de clima tropical e razoavelmente quente e ensolarados. Imaginem só se o pessoal do Caribe usasse terno como nós por aqui...

E a moda vem consolidada também em setores mais conservadores da sociedade. Vejamos o segmento religioso, por exemplo. Observemos os padres e rabinos: ainda ostentam sua indumentária pesada, geralmente na cor negra. Há algo mais complicado do que uma roupa longa, preta, ao sol??? Acho interessante que alguns líderes religiosos já estejam adotando roupas mais leves, de cores mais claras, adequadas ao clima tropical...

Há quem diga que os habitantes do deserto protegem-se do sol com roupas de lã, cobrindo todo o corpo, roupas essas que também os protege da areia e do frio noturno, mas a premissa não vale para nós brasileiros que entramos e saímos dos ambientes climatizados a todo o tempo, bem como estamos sujeitos a chuvas, sem falar nas oscilações periódicas de temperatura durante o dia. Tudo sem falar no hábito da população desértica e de sua total adaptação ao tal modo de vestir.

Mas terno???? Terno não tem nada a ver com o Brasil embora a sua exigência seja às vezes um mister inexplicável. Não suporto terno. Tenho pescoço curto e papo. A gravata me incomoda. As barbatanas metálicas que uso nos meus colarinhos em geral engomados, cutucam minha pele dando a impressão de que vivo tomando chupões no horário do almoço, já que ando sempre com manchas vermelhas acima da camisa. A gravata é um acessório que nada me enriquece. Afinal, o que ajuda um treco de pano pendurado em nossa cabeça além de esquentar o cocoruto? No mais, foi-se o tempo em que a gravata servia para indicar o regimento a que o indivíduo servia...

Aliás, se eu for olhar minha gaveta e observar as tantas gravatas que tenho lá, colecionadas durante um bom tempo - hoje sou adepto de gravatas baratas, já que penso não ser interessante pagar uma pequena fortuna por uma gravata que dure anos; prefiro pagar barato e usar uma gravata por uma estação e não ter pena de doá-la a alguém - parecerá que servi no regimento dos cachimbos (tenho uma gravata da Moschino com um monte deles...), no regimento das zebras, no regimento das Matruskas, no regimento das bolinhas (de várias cores), das listras, e que até sou um "sem regimento", porque tenho lá minhas gravatas lisas. Nossa... sou um "sem regimento"... no dia em que eu invadir alguma repartição, ministério ou terra de alguém, vou usar uma de minhas gravatas lisas, mas não no pescoço. Vou usar na cabeça, como o Vêsgo do Pânico...

Voltando à porra do terno. Terno no Brasil é inexplicável, até mesmo porque, por incrível que pareça, nas nossas paragens, terno confere ao usuário até titulação acadêmica. Bastou meter um ternão que o cara vira "doutor". O terno confere ao fulano os graus de bacharelado, mestrado e doutorado. Doutor... doutor merda nenhuma... isso é coisa de gente não esclarecida.

Não é porque alguém que está de terno, porque é almofadinha, que vale mais do que qualquer outra pessoa. Mas isso é uma questão de cultura no País. Acho que herdada ainda dos anos de chumbo, em que os ternos, junto com as fardas eram o símbolo do poder, contrapostos à roupa mais informal, às calças de brim, às sandálias de dedo, aos biquinis, até mesmo às tangas de crochê, tal como a que usava o Gabeira...

Não faço aqui a apologia à tanga de crochê ponto-largo e tampouco ao naturismo, mas questiono essa coisa de ser necessário o terno... Por outro lado, sou contra a avacalhação. Não é porque em certas situações se dispensa o terno que o cara tem que aparecer de bermudão com a cueca pra fora e de All Star. Deve ter o mínimo de bom senso. Casual day, não significa mostrar os pentelhos pra galera do escritório, mas vestir-se apenas com um pouco mais de conforto e sem tanto formalismo.

Que se siga o exemplo dos demais países das Américas Latina e Central. Terno não é necessário mesmo, mas dignidade e elegância devem estar sempre preservados, bem como respeitados os ambientes e solenidades.

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