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domingo, 29 de novembro de 2009

Até que enfim, separado! Mas e agora?

Pronto! Separado!

Uma certa sensação de alívio, de liberdade, de início de nova vida. Hora de reciclar, de novas decisões, de rever antigos amigos, de ter o coração livre, de buscar novas amizades e quem sabe, novos amores e paixões.

Começa a olhar em volta. Qual o próximo passo? Onde vai morar?

A solução é um flat... apart no Rio. Empresas especializadas têm de todos os preços, em todos os bairros, desde os mais baratinhos, de alta rotatividade, cujas camas ainda estão quentes recém deixadas pelo último casal sôfrego que passou por ali, até os mais sofisticados, com moradores mais permanentes, mas com preços estratosféricos.

Temporariamente, vale a opção. Mas por pouco tempo, até encontrar um lugarzinho pra morar, com cara de casa, mas funcional, pra não ter a preocupação do dia-a-dia com limpeza, empregada, reparos, compras do mês, etc., etc. Tenta um flat de médio padrão, mas o colchão está afundado de um dos lados, o carpete meio manchado, o balcão da cozinha queimado com ponta de cigarro e a vizinhança não é das melhores. Sem falar na localização. De um lado tem uma obra e do outro uma escolinha infantil. Barulho que mais parece uma orquestra dos horrores... O tempo no flat será curto.

Num determinado dia, recebe o telefonema daquele corretor que foi o mais empenhado: "- Dr., achei o apartamento ideal para o senhor. É de um casalzinho que foi de viagem para o Canadá, está semi mobiliado, todo reformadinho, em um prédio de uns dez anos, com um bom preço e que dá pra negociar. Posso passar aí agora pra visitar? A mãe do proprietário estará lá com a chave em 15 minutinhos..."

"- OK. Já desço."

Entra no Monza do corretor e rumam ao prédio. Ajeitadinho mesmo. Mal passa o portão já vê uma mocinha com idade pra ser sua filha saindo com roupinha de ginástica, provavelmente indo puxar ferro na academia e, tal como o lobo do Chapeuzinho vermelho, olha-a com uma voracidade indecente. O corretor finge que não vê.

Em segundos é apresentado à mãe do dono do apartamento. Pensava que iria encontrar uma velha alquebrada, mas encontra uma coroa enxuta, de meia idade, cujo filho, lá com os seus vinte anos deve ter ido realmente fazer um curso ou ter ido tentar trabalhar fora. Pensa logo: "eu bem que dava um tapa nessa coroa..."

Já no apartamento, está tudo nos conformes mesmo, ajeitadinho, reformado, alguns moveis modernos. Precisa apenas de um trato, um certo ar de pessoalidade. Um pouco de cultura em bom gosto nas paredes. A coroa informa que vai retirar os poucos pertences pessoais deixados pelo casal antes de sua viagem. O cara pensa: "lógico que precisa tirar ou acha que vou ficar aqui guardando essa ridícula prancha de surf ou essa ridícula coleção do Asterix?????"

Fica com o imóvel. Acerta valores. Passa a comprar vorazmente aquilo que acha que precisa para tornar do apartamento um lar. Nada como as casas de móveis prontos, lojas de roupas de cama e banho, tudo muito simples e ao mesmo tempo bem caro, comprado no atacado. Não tem a mínima noção de que o ideal é comprar peça a peça e não tudo da mesma cor e da mesma marca. O ideal é acabar logo com a lista que fez ajudado por algum amigo que já tenha passado pela experiência e com o cartão de crédito com o limite bem gordo...

Pronto. Vida nova. Enfim sós. Ele e seu apartamento novo. Vai viver em paz. Ter seu cantinho, com tudo arrumado. Ninguém vai tomar seu espaço. Ocupar sua pia do banheiro. Fuçar nas suas gavetas. Abaixar o tampo do vaso sanitário, já que a posição certa é levantado... Vai poder assistir TV na hora que quiser, convidar seus amigos para assistir DVD, comer quem quiser no apartamento, até fazer uma suruba... pensa longe... “menas”, meu caro, “menas”. Você está separado mas não tá com essa bola toda não. Não tem a energia dos vinte…

Começa a comprar Vip, Men's Health, procurar uma academia perto de casa, tenta mudar o estilo, quer passar de fornecedor de meninas ao mercado (tem duas filhas adolescentes) a consumidor... Decide trocar o guarda roupa, fazer uma lipo, comprar um esporte conversível.

Compra o carro, sai com ele, mas na primeira parada, descobre que não consegue sair do carro sozinho. Descobre que a protuberância acima do pintinho vai ter que sumir. Ou ela ou o carro, senão vai passar vergonha em ter que minhocar pra fora do veículo.

Pensa de novo na lipo.

Em pintar o cabelo.

Toma as devidas providências e rejuvenesce. Sei lá, ou pensa que rejuvenesce.

Na verdade, nem se pergunta se as mulheres gostam ou não de um cara que apenas quer parecer novinho ou que têm coragem de assumir a idade e, na concorrência, ganham pela experiência, no trato, na inteligência, ou até mesmo pelo charme dos cabelos grisalhos ou na falta de alguns fios no cocuruto...

Passa a freqentar as tais baladas, bebe whisky com energético, fica doidão, corre atrás das meninas que adoram ir no apartamento do tio pra tomar champagne e depois vazar pra outra festinha com um beijinho e um alegre obrigado. E, o Viagra que tomou não serve mais pra nada... só para deixar o rosto quente pra cacete e uma puta dor de cabeça.

Com o tempo começa a refletir... o que sou eu? Que merda estou fazendo? Que porra é essa? Sou ridículo????

O supermercado começa a mudar. Deixa de haver só champagne e água na geladeira. Voltam a aparecer queijos light, algumas frutas, umas barras de cereal, quinua, umas massas Barilla, molhos prontos, etc., etc. A despensa fica com cara de despensa de casa, de residência.

O horário fica mais certinho. As amizades vão mudando. Recupera as amizades daqueles que estão casados e que tem uma vidinha regrada. Os amigos da gema começam a voltar. Volta a ter o prazer de frequentar livrarias. De tomar um expresso na companhia de cabeças pensantes. Adota um ritmo de vida condizente com sua figura, ainda esbelta e emagrecida, mas afinada com sua idade. Quando pega suas filhas no colégio, sem saber, as mamães presentes passam a observá-lo com interesse e não mais como o lobo-mau cuja casa suas filhas eram proibidas de frequentar...

Enfim, passa pela metamorfose do recém separado. O carro conversível vira farra para passear com a Bianca e a Malú, as filhas, no final de semana. As amigas adoram.

Algumas garrafas de champagne ficam na adega, abertas apenas para brindes em momentos especiais. Volta a beber seu porto de vez em quando e socialmente seu whiskizinho, sem prejuízo do chopp com os amigos no happy hour dos dias mais calorentos. Mas essa deixa de ser a regra. Passa a viver sem neuras sua separação…

As vizinhas do prédio passam a cumprimentá-lo com certa amabilidade. Os maridos também o fazem sem a antiga desconfiança e sem a inveja anterior face às beldades que viam rumando ao 41, mesmo sem saber que alí, no geral, só rolava o "esquenta" para outras baladas mais interessantes. De fato, às vezes rolava um sexo gostoso, mediante um presentinho ou uma transa com uma amiguinha, mas era bem raro.

O tal recém separado não entendia bem o que era ficar. Queria transar amando e não conseguia fazer isso de primeira, nem com Viagra, nem com energético e nem com a garota fazendo as mais interessantes posições do Kama Sutra...

Chegou à conclusão de que, apenas era separado e que não poderia fugir muito dos seus valores. Precisava passar por aquilo tudo para se reafirmar na vida, retomar seu lugar ao sol. Mas até hoje pensa no que vai fazer com as dez caixas de energético que guarda no quartinho de empregada de seu apartamento.

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