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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra: momento de refletir sobre o racismo

Hoje é dia 20 de novembro: O Dia da Consciência Negra.

Não se trata apenas de um dia dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, mas de um dia para refletir contra todas as formas de preconceito, em razão de cor, raça, religião, sexo, origem, naturalidade, etc.

Nesta data, em que se procura lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro em 1534, devemos erguer a bandeira contra todos aqueles que, de alguma maneira praticam discriminação, preconceito e especialmente racismo.

A data de hoje - 20 de novembro - transformada em Dia Nacional da Consciência Negra pelo Movimento Negro Unificado em 1978 - não foi escolhida ao acaso, e sim como homenagem a Zumbi, líder máximo do Quilombo de Palmares e símbolo da resistência negra, assassinado em 20 de novembro de 1695.

O Quilombo dos Palmares foi fundado no ano de 1597, por cerca de 40 escravos foragidos de um engenho situado em terras pernambucanas. Em pouco tempo, a organização dos fundadores fez com que o quilombo se tornasse uma verdadeira cidade. Os negros que escapavam da lida e dos ferros não pensavam duas vezes: o destino era o tal quilombo cheio de palmeiras.

Com a chegada de mais e mais pessoas, inclusive índios e brancos foragidos, formaram-se os mocambos, que funcionavam como vilas. O Mocambo do Macaco, localizado na Serra da Barriga, era a sede administrativa do povo quilombola. Um negro chamado Ganga Zumba foi o primeiro rei do Quilombo dos Palmares.

Alguns anos após a sua fundação,o Quilombo dos Palmares foi invadido por uma expedição bandeirante. Muitos habitantes, inclusive crianças, foram degolados. Um recém-nascido foi levado pelos invasores e entregue como presente a Antônio Melo, um padre da vila de Recife.

O menino, batizado pelo padre com o nome de Francisco, foi criado e educado pelo religioso, que lhe ensinou a ler e escrever, além de lhe dar noções de latim, e o iniciar no estudo da Bíblia. Aos 12 anos o menino era coroinha. Entretanto, a população local não aprovava a atitude do pároco, que criava o negrinho como filho, e não como servo.

Apesar do carinho que sentia pelo seu pai adotivo, Francisco não se conformava em ser tratado de forma diferente por causa de sua cor. E sofria muito vendo seus irmãos de raça sendo humilhados e mortos nos engenhos e praças públicas. Por isso, quando completou 15 anos, o franzino Francisco fugiu e foi em busca do seu lugar de origem, o Quilombo dos Palmares.

Após caminhar cerca de 132 quilômetros, o garoto chegou à Serra da Barriga. Como era de costume nos quilombos, recebeu uma família e um novo nome. Agora, Francisco era Zumbi. Com os conhecimentos repassados pelo padre, Zumbi logo superou seus irmãos em inteligência e coragem. Aos 17 anos tornou-se general de armas do quilombo, uma espécie de ministro de guerra nos dias de hoje.

Com a queda do rei Ganga Zumba, morto após acreditar num pacto de paz com os senhores de engenho, Zumbi assumiu o posto de rei e levou a luta pela liberdade até o final de seus dias. Com o extermínio do Quilombo dos Palmares pela expedição comandada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, Zumbi fugiu junto a outros sobreviventes do massacre para a Serra de Dois Irmãos, então terra de Pernambuco.

Contudo, em 20 de novembro de 1695 Zumbi foi traído por um de seus principais comandantes, Antônio Soares, que trocou sua liberdade pela revelação do esconderijo. Zumbi foi então torturado e capturado. Jorge Velho matou o rei Zumbi e o decapitou, levando sua cabeça até a praça do Carmo, na cidade de Recife, onde ficou exposta por anos seguidos até sua completa decomposição.

“Deus da Guerra”, “Fantasma Imortal” ou “Morto Vivo”. Seja qual for a tradução correta do nome Zumbi, o seu significado para a história do Brasil e para o movimento negro é praticamente unânime: Zumbi dos Palmares é o maior ícone da resistência negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Os anos foram passando, mas o sonho de Zumbi permanece e sua história é contada com orgulho pelos habitantes da região onde o negro-rei pregou a liberdade.

Não obstante sacrifício do Rei Zumbi e seu holocausto em prol da liberdade, nosso País ainda vive o racismo e o preconceito, manifestado das mais diversas formas.

Ao se abordar a questão do racismo e preconceito no Brasil, existe uma tendência de compreendê-lo como igual ou similar ao de países com outras histórias e tradições. A eterna comparação com os EUA, outro gigante territorial e populacional do Novo Mundo, fez com que muitos relativizassem ou negassem a existência de racismo no Brasil, ao contrário de entendê-lo dentro de suas especificidades. De modo mais raro, a comparação com o finado apartheid sul-africano colocou o mesmo país, para os mais incautos, como pátria da tolerância racial, em que todos, brancos e negros, homens e mulheres, sulistas ou nordestinos, etc., devem ser tratados da mesma maneira, sem preconceito, discriminação ou racismo.

Aliás, a própria Carta Constitucional de 1988, garante direitos fundamentais a todos e (vide art. 5°, I, II, III, V, VI, X, XLI, XLII, etc.) vedando qualquer espécie de preconceito.

Neste diapasão, quando manifestado o preconceito sob qualquer forma, o mesmo deve ser rechaçado e punido com os rigores da Lei.

Usemos, pois, a data para refletir. Refletir sobre soluções de como debelar essa doença mortal que é o racismo...

Um comentário:

Lekkerding. disse...

Ótimo post. Gostaria que o tema fosse um pouco mais aprofundado - o racismo, no Brasil, é completamente atípico e tem vertentes em aspectos sócio-culturais muito peculiares. Gostaria de ver este tema desenvolvido e estudado, para encontrarmos uma solução para esta doença.