html Blog do Scheinman: A infeliz caçada ao "bicho homem"

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A infeliz caçada ao "bicho homem"

Homem: bicho estranho, muito estranho.

Sobre o homem já disse Arnaldo Antunes: "Hentre hos hanimais hestranhos, heu hescolho o omem".

Vendo a imagem acima passei a refletir acerca desse ser tão contraditório.

O que é de fato o homem, que nasceu quadrúpede e virou bípede e que hoje, em razão do tão buscado "progresso" pode ser visto rastejando de quatro, dentro do lixo à procura de alimento?

O que é o homem que, diante de suas práticas inconscientes e predatórias põe em risco a sobrevivência das outras mais de 10 milhões de espécies do planeta, além de sua própria, já que, conforme bem fundamentados estudos internacionais, mais de dois terços dos recursos naturais do planeta já foram completamente consumidos, sem reposição, a maioria no último século?

O que é o homem que, em busca do malfadado poder e com base em regras estabelecidas por não sei quem persegue e mata seu semelhante, muitas vezes sob argumentos pífios, de que o faz com base em princípios éticos morais ou religiosos, quando todos sabemos que Deus nenhum deseja que suas criaturas exterminem-se umas as outras?

É.... o homem é um bicho. Até os animais mais irracionais respeitam-se mais do que o homem. Até os animais considerados mais perigosos e nocivos respeitam o ambiente em que vivem...

Dizer que o homem é um bicho no sentido mais profundo - e não literal - da palavra talvez possa ajudar na busca de uma luz no final do túnel, de um futuro melhor...

Efetivamente, diante de todos os conceitos que escutei e lí até hoje, o homem não se conforta nem se conforma em definir-se como um bicho. Vê com preconceito a possibilidade de ser confundido com seres que acredita estar muito aquém de suas supostas virtudes, e acaba qualificando a sua animalidade: qualifica-a, via de regra, desqualificando as demais. Acrescenta ao substantivo animal um adjetivo confuso que denomina racional, acreditando ser uma espécie de superioridade quase divina, que o deixa acima de todas as demais espécies existentes: o homem jamais aceitou o fato de ser um bicho que, como todos, dispõem de particularidades que o distingue, mas não o qualifica seja de forma superior ou inferior aos demais animais.

Naturalmente, entre os homens há aqueles seres que se qualificam e outros que se desqualificam como relação aos demais da própria espécie, mas isso ocorre com todas as espécies. Ser definido como animal ofende a sua auto-estima e isso desde os primeiros relatos históricos. Não quer ser filho da natureza, quer deuses como pais! Ora, é público e notório que todos os bichos são diferentes entre si, sem que isso qualifique ou desqualifique nenhum deles, seja para si próprios, seja perante os demais, com exceção dos inseguros humanos, que temem ser considerados inferior ou mesmo igual. Qualificar ou desqualificar é um problema bem humano e, via de regra, o desqualifica. Revela uma insegurança psíquica e uma infantilidade com relação a sua auto-estima: ao tentar encontrar o valor das coisas, acaba encontrando apenas o seu preço, e tudo que tem preço, é coisa barata.

Isso tem várias explicações, mas nenhuma delas parece satisfatória, nem pode ser aceita pela unanimidade da humanidade. Em particular porque além dos animais humanos se considerarem racionais, sendo a racionalidade, segundo crenças muito antigas, uma espécie de superioridade com relação aos demais animais, cada um dos seres humanos se considera superior aos demais seres humanos, ou mais racionais que os demais. E, diante disso, outorga-se direitos sobre os seus semelhantes, ou seja, acaba se considerando mais homem e com mais possibilidades do que outros.

Talvez por isso é que o homem escravizou, subjugou, agrediu, exterminou, aniquilou outros, apenas os considerando inferiores...

O fato é que enquanto os animais parecem ter funções naturais, o homem tem apenas enormes presunções. Essas presunções fazem-no acreditar ter mais do que função natural, mas possuir também um destino superior. Alguns alucinados acreditam que este destino está escrito nas estrelas, outros no interior de animais dissecados em rituais macabros, ou em pedras, rochas, conchas. Há pessoas que escutaram ou escutam vozes que atribuem a divindades, e a crença e a tradição afirmam serem certas porque estão escritas em livros antigos ou recentes.

Entretanto, o grande equívoco ocorreu há alguns séculos atrás, no Iluminismo, quando alguns começaram a acreditar e difundir a crença de que o homem é gente, e que gente é sinônimo de gentil, fidalgo, cavalheiro, agradável, aprazível, gracioso, delicado, elegante, educado, enfim, aquilo que muitos poucos seres humanos conseguem ser por alguns poucos instantes em algumas raras situações e ocasiões. Porém, termos e conceitos como homem, animal, definição, qualificação assim como o verbo ser são palavras e símbolos, enfim, coisas que se complicam quando o homem pensa, principalmente quando pensa a sério. Assim, não nos percamos nos termos e enunciemos os fatos.

O problema está em crer que o verbo ser se aplica de forma unívoca aos seres humanos, que o homem é isso ou aquilo, quando de fato, como inaugurador de artifícios e senhor do seu destino, ele pode acordar como um gênio ou herói e ir dormir ao fim do dia como uma fraude ou um covarde. O verbo mais apropriado que se aplica ao ser humano é o verbo estar. Não somos felizes ou infelizes, bons ou maus, mas sim podemos estar contentes ou tristonhos, estar realizando coisas boas ou más. Somos criaturas do momento que é algo que está sempre mudando, seja por nossa ação, por nossa reação ou por nossa omissão, mas através de nossa participação ainda que em grande parte inconsciente.

Todavia, conforme tem bem salientado por Roberto B. Freire - Professor de Filosofia da Universidade Federal do Mato Grosso - o bicho homem é tanto uma temática de estudo distribuída entre diversas ciências humanas, quanto uma espécie estudada pelas diversas ciências naturais. É produzido e reproduzido nas ações e reações de nossas razões e sentimentos. Uma espécie capaz de se encantar consigo própria de tal modo a considerar-se acima e privilegiada a todas as demais e a tudo mais, auto-instituindo direitos que extrapolam em muito a razoabilidade, promovendo de um lado grandes desperdícios em consumos excessivos, e trazendo assim a conseqüente carência em outros, sendo a mesma decorrência não das impossibilidades materiais, mas de ausência de um sentimento de humanidade, ou de uma profunda ignorância, onde a miséria alheia é indiferente ou, pior ainda, suscetível de ser explorada, onde impera a ignorância universal da humanidade sobre si própria.

Desta forma, o importante é salientar o fato de termos nossos destinos interligados mundialmente, e uma catástrofe em uma parte qualquer, cedo ou tarde reflete e ecoa sobre os mais longínquos pontos do planeta. Há que se pensar em nossa relação, há que se discutir esse casamento entre os homens, pois apesar de sermos sós, individualistas, máquinas desejantes, eu e apenas eu, somos uma espécie que intercede no destino individual, coletivo e universal simultaneamente: nossas ações são como uma pedra atirada num lago, no qual a água reverbera fazendo círculos até atingir o lago todo em ondas sucessivas. Somos sós, mas não estamos sós. Pensemos sobre essas coisas peculiares, e aprendamos com os erros e equívocos cometidos no passado: o bicho homem não existe apenas aqui e agora, ele se constrói há milênios de anos, e isso mais que uma peculiaridade é um instrumento que devemos tornar consciente e utilizá-lo com mais sabedoria, menos ignorância e mesquinharia.

Enquanto homens, somos nem grandes nem pequenos, não somos melhores ou piores, não somos benignos ou malignos, não somos bons ou maus, mas podemos assumir uma dessas facetas quando agimos na busca dos interesses próprios, quando não levamos em conta as conseqüências de nossas ações.

Quiçá, possamos nos guiar pelos bons caminhos, em busca da evolução, da proteção de interesses maiores, da preservação do meio ambiente... talvez assim não se cumpra a famosa frase atribuída a Einstein de que a 3ª Guerra Mundial não se sabe como será, mas a 4ª será com arcos e flechas...

É isso.

3 comentários:

Marcelo disse...

Belo texto professor!

sistema de recuperação disse...

Gostei do post

faço biblioteconomia na ufmg estou no 4º periodo
http: //sistemaderecuperacaodainformacao.blogspot.com/
http://biblioteconomiahoje.blogspot.com/

Daiane disse...

Parabéns! Um exemplo de texto que todos deveriam ler ...