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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Macaco Chiovenda: o estagiário de direito

O macaco, compreendendo, genericamente os Platyrrhini e os Catarrhini sempre provocou no humano um sentimento de fascínio e de simpatia. Fascínio pela inconfundível semelhança e simpatia pela capacidade de provocação e imitação.

Exatamente por esta estranha atração é que os macacos passaram a freqüentar as histórias, contos, lendas e o mundo do entretenimento popular. A macaca Chetah, o King-Kong, o Mico Preto, os três macaquinhos (cego, surdo e mudo), fazem parte da tradição e vêm contribuindo para o arquétipo antropomórfico que reveste a figura do macaco.

Tido como esperto, brincalhão, imitador, inteligente, maroto, caricato, astuto, amigo, o macaco aparece muito em situações anedóticas, menosprezando ou superdimensionando suas verdadeiras características e atributos comportamentais.

Ao lado desta visão leiga e popular, o macaco também aparece na cultura religiosa, principalmente na Índia, China e Japão com características mais míticas e repletas de significados mais nobres, tais como: conciliação, harmonia e sabedoria.

É nesta perspectiva, de apropriação cultural, que as parêmias, que se utilizam de primatas como protagonistas, se estruturam, seja atribuindo aos animais uma essência humana (eixo antropocêntrico) ou generalizando observações etológicas populares para os humanos (eixo animalcêntrico).

Mas o nosso mico é especial, é o macaco Chiovenda, acadêmico de direito, atualmente penando para ser aprovado no quarto ano e rezando pela sua efetivação no escritório onde estagia.

Chio, como é chamado pelos amigos tem a vida complicada. Anda de ônibus porque não tem carro. Não ganhou um do papai quando entrou na faculdade. Tampouco o escritório lhe paga táxi; mas também não exige que ande de terno três botões abotoados durante todo o dia com gravata Zegna e calçados Ferragamo. Muito menos que use gel no cabelo… Chio é macaco, mas é estagiário na boa... Camela muito. Faz pesquisa no tribunal, pega fila na Jucesp, vai no Banco, olha processos, fotografa autos, come no bandejão da facú e ainda passa na locadora pra devolver os DVD’s do chefe, um recém ex-macaco, mas que se julga um macaco-velho, praticamente tão importante, experiente e conhecedor do direito, tal como o dono da árvore...

Como estagiário, Chio é quase considerado um ser humano pelos seus superiores imediatos. Aliás, até um ano antes estes também alimentavam-se somente de bananas, barrinhas de cereal e churrasquinho grego, porque era o que dava pra comprar com o soldo de mico que recebiam. Mas a mágica da carteira da OAB os fez passar pela “metamorfose macaco-advogado”. De repente passaram a andar empertigados, garbosos, com a coluna ereta. Rapidamente esqueceram-se de que há pouco tempo eram macacos e que penduravam-se nos ônibus por aí, perambulando pela selva dos balcões forenses.

Passaram a esnobar o velho companheiro de guerra Chiovenda e deixaram-lhe todas as bananas. Agora alimentam-se das mais finas iguarias. Pertencem ao mundo dos humanos enquanto em alguns momentos ainda se vêem em algumas dificuldades para esconder o pedacinho de cauda que lhes resta: são as tradicionais comidas de rabo do chefe. É que de vez em quando são compelidos por algum ex-macaco mais velho a comer umas bananinhas. E estas bananinhas tem um gosto danado de amargo...

Chio também sonha com o dia em que será tratado como humano. Com o dia em que não será apenas adjetivado como esperto, engraçado, capaz, astuto, promissor ou tratado como reles semovente.

Chiovenda ainda sofre pressão do pessoal da árvore para “matar aula” e terminar o serviço até o dia seguinte, quando o estágio, em tese, serve para complementar seus estudos. Aliás, mesmo com a aprovação da tal “Lei do Estágio”, Chiovenda continua sendo sacaneado da mesma forma, já que, se reclamar, cai do galho e que vá comer suas bananas em outra freguesia...

Mas, Chio se esforça. Sabe de suas limitações. Sabe que é macaco, esperto, brincalhão, imitador, inteligente, maroto, caricato, astuto, amigo. Sabe que por ser macaco é mal-tratado, humilhado, mal pago, rejeitado. Mas também sabe que o sacrifício tem lá suas recompensas, já que é capaz, batalhador, persistente, estudioso e não tem medo do futuro.

Chiovenda sabe que mesmo sendo macaco vai chegar lá. Mesmo passando por suas provações, um dia vai ser reconhecido como um ótimo ex-macaco e advogado. Chio, bem lá no fundo sabe que, trabalhando duro e honestamente, concluindo com dignidade sua faculdade e cônscio de que sempre terá que estudar, há de vencer na carreira do Direito.