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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Porque coleciono pinguins?

Resolvi dedicar esse post a um de meus hobbies... algo que me entretém, me faz dar boas risadas e outorga a satisfação de entregar-me ao salutar hábito do colecionismo. Milhões de pessoas colecionam os mais diversos objetos em todo o mundo. O que as leva a isto ? Numa primeira análise, o colecionismo poderia ser considerado apenas como uma forma de entretenimento, um simples " hobby ". Mas, uma análise mais profunda, logo demonstra tratar-se de uma atividade mais importante : o colecionismo, além da idéia básica de entretenimento cultural, é uma arte e uma ciência.

A história relata, em diversas etapas do desenvolvimento humano, uma série de pessoas, em diferentes locais, preocupadas em guardar, armazenar objetos, de modo a preservá-los. Se isto não tivesse ocorrido, não teríamos, hoje, o conhecimento que temos de nosso passado.

Apesar dos inegáveis atrativos que os modernos meios de entretenimento proporcionam às pessoas e, lembrando-se de um passado ainda recente, não se pode deixar de constatar o irresistível charme e o fascínio que o colecionismo exerce sobre as pessoas. A grande maioria delas já passou por uma experiência colecionista, por mais breve que tenha sido, e quase todos, mesmo não tendo prosseguido, tem uma palavra de atenção, de reconhecimento, de saudade e mesmo de admiração pelo que fez algum dia.

No entanto, juntar coisas de forma ordenada ainda gera alguns tabus, com conotação pejorativa ao colecionismo, seja ele de qualquer natureza : ele é uma atividade salutar e recomendada, bem como pode ser praticada por qualquer idade, não sendo uma mera atividade recreativa infantil ou um passatempo para a terceira idade. Segundo psiquiatras, colecionar é uma atividade absolutamente normal. Todos as pessoas colecionam algo, mesmo que não percebam. Podem ser caixas de fósforo, chaveiros, sapatos, etc. Inadvertidamente ou não, sempre colecionam alguma coisa. Podem ficar tranqüilos, pois anormais são aqueles que não se interessam por nenhuma outra atividade, além de sua atividade cotidiana, às vezes nem mesmo por ela...

Para se ter uma idéia da importância do colecionismo,diversos países introduziram uma das formas de colecionismo, a Filatelia, em seus curriculuns escolares, considerando-se a sua importância didática, histórica e cultural.

O colecionismo é uma importante fonte de estudos e pesquisas, pois os objetos colecionados refletem as imagens dos diversos tipos dos mesmos, de acordo com suas particularidades e características, neles estando retratados os seus aspectos culturais e até mesmo pode-se ter a história de uma nação contada, por exemplo, pelos seus selos postais ou por suas moedas.

A adoção de um plano para uma coleção, de uma estruturação da mesma, implica em raciocinar, criar, imaginar, pesquisar, estudar e observar regras, além de relacionar-se com terceiros. Este conjunto de tarefas configura um trabalho natural de observação, análise e síntese desenvolvendo aptidões e aumentado a capacidade de aquisição de novos conhecimentos com a conseqüente elaboração e expressão dos mesmos. O desenvolvimento de uma coleção, tornando-a dinâmica, moderna, maleável, cada vez mais completa, induz, sempre a uma necessidade de um melhor trabalho, de mais pesquisa e por isto mesmo motiva cada vez mais o trabalho a ser desenvolvido.

O colecionismo desenvolve a metodologia, o senso de observação, a atenção e por fim a paciência, tão necessárias para um estudo em profundidade de qualquer assunto. A pesquisa, item este tão importante e ora praticamente abandonado pelos educadores é um elemento obrigatório para qualquer forma de colecionismo vai despertar o instinto de curiosidade, fundamental para o prosseguimento dos estudos.

Paralelamente, a limpeza, o rigor, a correção, elementos básicos da coleção serão elementos que lhe servirão ao longo da vida escolar, em qualquer grau e até mesmo profissionalmente, por toda a vida.

Pode-se e deve-se iniciar uma coleção de forma bem simples, sem preocupação financeira. A coleção vai crescer, tomar forma e rumo e, caso o colecionador queira, poderá aumentá-la na medida de suas possibilidades. Pode-se fazer uma coleção do tamanho do bolso de cada colecionador.

O colecionismo pode ser praticado por todos, sem distinção alguma, não se constituindo numa atividade elitista, pois as coleções são formadas por seus praticante, no nível desejado ou possível, desde uma coleção simples, porém expressiva e de valor cultural e educativo, até uma especializada, com as mesmas qualidades, porém com valor financeiro elevado. O colecionador propriamente dito não objetiva o lucro. Seu investimento se baseia na aquisição de conhecimentos. Todo colecionador acaba por se tornar um especialista em sua área. Se vier a ocorrer um lucro financeiro, este surgirá de maneira espontânea, pois todo acúmulo de valores traz, afinal de contas, uma riqueza.

Duas coleções, uma simples e modesta e outra, premiada e de alto valor financeiro, possuem uma característica em comum : o seu aspecto cultural. Isto, mais do que um aspecto em comum, é uma qualidade, que une e nivela os colecionadores. Ambas tem o mesmo valor para seu proprietário, o mesmo objetivo, a mesma importância, podendo diferir no seu valor, mas esta é outra questão...

O fascínio da pesquisa, da descoberta, é algo inerente ao ser humano e o colecionismo é um dos campos que proporciona as melhores oportunidades neste sentido. Os grandes acervos, em todo o mundo, quer particulares, quer de museus, arquivos, etc., iniciaram-se, em sua maioria, por pequenas coleções particulares.

No meu caso, há alguns anos, comecei a colecionar os famosos pinguins de geladeira, comuns nas cozinhas na década de 1940, como item obrigatório de decoração dos refrigeradores, àquela época considerados artigos de luxo e objeto de ostentação. O primeiro que ganhei foi um pequeno pinguim de Murano, na cor azul. Em seguida começaram a vir os tradicionais pinguins de porcelana, nos mais diversos tamanhos, expressões e das mais diferentes idades.

De fato, com a expansão da geladeira nos lares brasileiros na década de 1960, o seu principal objeto de adorno foi popularizado, passando a ser considerado algo absolutamente cafona e posteriormente brega.

Um autêntico “Spheniscus magellanicus geladeirum”, ou seja, um autêntico pinguim de geladeira da década de 40 é feito de porcelana, com uma altura por volta de uns 25 centímetros. Deu origem a outros tipos como o pingüim de crochet que vestia as alavancas de abertura das geladeiras de então que insistiam em dar choques elétricos nos seus proprietários. Tenho alguns exemplares deles em suas variações. Muitos em bom estado...

Esquecido mas não morto, o pinguim de geladeira teve sua volta triunfal na década de 1990, como um dos símbolos da arte "kitsch", que tem como principal preocupação "brincar" com o exagero e prestar uma justa homenagem ao humor.

De fato, não coleciono apenas pinguins de geladeira, mas todos os tipos de pinguins, de todos os materiais e tamanhos, obviamente, com maior predileção pelos de porcelana. No entanto, em minha coleção há peças em metal, madeira, cerâmica, vidro, cristal, murano, pedras brasileiras, resinas, borracha, etc., etc. E, não só passeio pelas pequenas réplicas (às vezes estilizadas dos pinguins em diversos materiais)... conto com moedas, cédulas, selos, louças, cartões telefônicos, relógios, preservativos, canetas, telefones, acessórios para computador, tapetes... enfim, tudo relacionado a pinguins.

Adquiro as peças de todas as formas... em peregrinações pelas feirinhas de antiguidades, pelas lojas de cacarecos e bricabraques, presentes de amigos, “família vende”, etc.... confesso já até ter cometido pequenas extravagâncias relativamente a pinguins, como por exemplo adquirir peças raras e antigas em leilões, algumas esculturas cujos artistas um dia resolveram homenagear um pinguim e assim sucessivamente. Já tive vontade muitas vezes de cometer pequenos furtos, mas nunca o fiz... Mas confesso já ter me transformado num verdadeiro cara-de-pau pedindo a alguém que me desse um pinguim que tenha visto em seus domínios... Por exemplo, tenho aqui um exemplar em borracha que foi distribuido pelo laboratório farmacêutico que fabricava o medicamento Gelusil-M, que foi gentilmente cedido a uma amiga, a pedido, por uma médica que sequer conheço, que reside em João Pessoa no Estado da Paraíba... Ou uma daquelas bonequinhas russas (as Matruskas), mas em forma de pinguim, que contem 14 pequenos pinguins em tamanhos decrescentes em seu interior... ou um pinguim adquirido por dileto ex-aluno no aquário de Genova, mas feito de algas recicladas... é interessante saber que as pessoas ajudam a formar e incrementar a coleção. Ultimamente estava de olho nos pinguins distribuídos pela Editora Abril para divulgar a Revista Piauí, mas não havia jornaleiro ou banca que queira fazer negócio, até que o diretor de marketing da revista, sabendo da minha”doença”, me enviou um exemplar que hoje ostenta minha estante. Peça também interessante foi um roupão igual ao usado por alguns dos integrantes do Big Brother 9 da TV Globo, com traços de pinguim naturalmente…

Mas também atuo em contrapartida. Sempre tenho comigo um bom estoque de pinguins. Vivo presenteando os amigos com alguns espécimes em porcelana. Alguns raros outros não, alguns pequenos, outros grandes... As pessoas que me são próximas ganham seus pinguins. Talvez no meu íntimo tenha a esperança que iniciem sua própria coleção...

Mas, porque pinguins? Porque resolvi colecionar pinguins??? Sempre me perguntam... na verdade não sei... talvez tenha sido por eliminação... corujas, sapos, elefantes, cavalinhos estão saturando o mercado. Queria algo mais complicado de colecionar, encontrar e classificar.

Aliás, outro dia, conversando com um psiquiatra, muito amigo, experiente e inteligentíssimo, que, infelizmente, não mais se encontra entre nós, recebi um elogio indireto, em que fez um paralelo entre a natureza dos pinguins e minha predileção por colecioná-los.

Contou-me o médico amigo que o pinguim é um dos poucos exemplares do mundo animal que só consegue viver em comunidade, além de não ser nômade por essência, permanecendo no Antártico e nas suas gélidas águas durante todo o seu período de vida. Ou seja, o pinguim é um ser vivo socializado, que convive bem em comunidade; aliás, para o pinguim, a vida em comunidade, mais do que uma forma de socialização é um meio de sobrevivência.

Reúnem-se em grupos enormes, e, à vez, ocupam lugares no interior deste círculo, a fim de se manterem quentes e protegidos do vento. Atingida a temperatura ideal, retornam ordeiramente ao exterior. Tudo isto sem necessitarem de tirar uma senha ou obedecer a uma ordem de comando. Puro instinto e cavalheirismo (não é à toa que parecem usar smoking). Graças à sua disciplina e capacidade de adaptação, preservam-se enquanto grupo coeso e organizado.

Agridem somente quando ameaçados, do contrário são extremamente mansos, divertidos e curiosos.

Têm fêmeas fixas e são monogâmicos. Durante o período de reprodução, os ovos são colocados em ninhos de pedra, cavados ou sobre as pregas da pele existente nos pés (dependendo da espécie do pinguim). Os machos, geralmente, ajudam na incubação que dura de 5 a 6 semanas. Os filhotes são agrupados em creches e não podem procurar alimento sozinhos até que terminem o seu desenvolvimento.

A fidelidade é característica marcante entre os casais de pingüins. Raramente acontece o divórcio, somente em casos de má reprodução. Em suma, ter minha personalidade comparada à natureza de um pinguim, me parece elogioso...

Se por colecionar pinguins - e o faço de forma séria, contando hoje com mais de 1000 unidades, entre bichinhos e objetos diversos relacionados ao tema - posso ser considerado um ser socializado, solidário, educado, cavalheiro, elegante, disciplinado, trabalhador e preocupado com a entidade familiar - tal como ocorre com as dóceis aves - já me dou por feliz nesta vida.

Pense nos pinguins... talvez possam servir de exemplo para uma vida melhor. Não sugiro que passe a idolatrar a ave, mas de repente, uma boa lição pode ser extraída se apenas tiver um exemplar de porcelana ostentando o topo de sua geladeira.

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