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domingo, 6 de fevereiro de 2011

A culpa e o exercício da advocacia

Tenho conversado muito com meus alunos nos últimos tempos. Aliás, tenho aprendido demais com esses jovens que são uma das minhas maiores alegrias de viver.

E, algo que tem me preocupado sistematicamente é o sacrifício que essa moçada têm feito, muitas vezes com prejuízo de suas atividades acadêmicas, sociais, pessoais e até mesmo prejuízo físico, afetivo ou familiar, tudo em troca de um pseudo sucesso profissional.

Quantas vezes não vejo um rapaz ou moça, na flor da idade, chegar na faculdade esbaforido, esgotado porque se lhe atribui no escritório onde apenas faz estágio, responsabilidades que não são suas? Quantas vezes o aluno falta na faculdade ou briga com sua namorada porque deve apresentar um trabalho no dia seguinte, humanamente impossível de ser realizado no período normal de trabalho ou que, certamente, o acadêmico ainda não tem capacidade técnica de elaborar?

Que profissional será esse?

O que leva essa moçada a essa abnegação exacerbada? A essa entrega desmesurada? Certamente não é a remuneração, porque o salário pago aos acadêmicos não é lá essas coisas... tampouco os estagiários são sócios dos escritórios onde atuam... muito menos são reconhecidos pelas horas que faturam ou pela qualidade do trabalho que desenvolvem.

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que essa loucura coletiva é gerada única e exclusivamente pela culpa... isso mesmo, culpa. Culpa que é incutida nos militantes da advocacia desde a mais tenra idade. Mas, deixem-me explicar:

Um sentimento que se aprende desde a infância, é o discernimento do certo e do errado. É a voz da consciência, mas pode ser a chave para a submissão e a falta de ética no trabalho. A emoção que se descreve é a culpa. De acordo com vários estudos psicoterapêuticos, existem diversas maneiras de encarar a culpa no ambiente corporativo.

De fato, o sentimento de culpa tem o lado positivo, não é só negativo. É ela que faz com que você reconheça os seus erros. Mas, para que isso aconteça, ela deve ser usada com uma dosagem certa. Como medir isso? Deve-se fazer uma auto-avaliação no trabalho e saber reconhecer os erros. Cada um deve identificar qual é o seu grau de autocrítica e de perfeccionismo em relação ao trabalho e analise se está se auto-censurando demais, se cobrando além do que pode. Caso contrário, o papel da culpa em sua vida é realmente o da voz da consciência.

Mas esse trabalho é árduo, já que quem está sob permanente pressão e não consegue encontrar o meio termo acaba submetido aos extremos, que são o de se transformar em refém da culpa ou simplesmente esquecê-la, o que efetivamente acontece com muitos de meus pupilos. Pelo menos é o que eu observo...

No primeiro caso, as pessoas são assim: não se sentem no direito de reivindicar, de exigir mais, são masoquistas, trabalham mais do que deveriam para justificar o salário e sempre renunciam. Estes são mais fáceis de lidar, mas também de manipular. São mais passivos e não são tão ameaçadores.

De outro lado há os que simplesmente não sentem culpa, que acabam por não reconhecer os erros, as atitudes e não percebem quando magoaram ou ofenderam algum membro da equipe ou simplesmente não realizaram alguma tarefa com a exatidão devida. Esse tipo é mais cruel, não reconhece as falhas e isso é terrível para um profissional. Acaba, também, colocando um pouco a ética de lado. Ele tem um objetivo e vai atrás dele com segurança, mas também não tem muitos critérios. Portanto, o que é o ideal? Ser um abobalhado submisso, o saco de pancadas da parada, sempre cheio de culpa? Ou ser aquele que não se compromete ou se engaja e no jargão popular, "toca um foda-se"? Nos escritórios de advocacia há os dois tipos de profissionais...

Conforme disse anteriormente, penso que para o bom desenvolvimento profissional, a culpa pode até estimular o crescimento, já que, sem o sentido de culpa jamais haveria a oportunidade da pessoa refletir e buscar melhorar. Portanto, ciente do que fez, a pessoa dá o primeiro passo para corrigir o erro e evitar outros. Por outro lado, o profissional não deve deixar com que o sentimento fique "martelando" na mente, fazendo com que se sinta o pior dos mortais e gerando sua diminuição perante tudo e todos e um terrível complexo de submissão e inferioridade.

Embora não pareça, a culpa pode deixar a pessoa vulnerável a outros pensamentos negativos contra si mesmo. Em suma, o conselho que deixo é o de que a pessoa deve analisar a oportunidade para observar e consertar o erro, mas nunca permitir que a culpa o engula e transtorne sua vida.

Está se sentindo exageradamente culpado? Está se sentindo engolido pela vida, pelo trabalho, pelas opiniões alheias, pelas tarefas que lhe são delegadas? Nada é definitivo. Tudo é reparável. Tudo tem jeito... Basta querer retomar o controle.

Já falamos que um pouco de culpa é até saudável e contribui para o exercício da generosidade, porém, fique atento ao principal sintoma do caminho da patologia: habito diário de reprimir a si próprio. De acordo com a psicóloga Inês Cavalieri, se você se recrimina por quase todos os seus atos, está sempre se culpando, mesmo que a culpa não seja de fato sua, ou quando você atribui uma culpa muito maior do que a falta cometida, o primeiro passo a ser dado é a revisão dos seus conceitos e valores. Avalie a atitude que gerou a culpa. Você agiu de acordo com os seus princípios? Agiu com honestidade? Na prática profissional fez o que se esperava de você? Agiu conforme os seus limites, levando em consideração toda sua expertise e que a advocacia é uma atividade de meio e não de resultado? Se positivo, não tem do que se culpar!!!! No mais, livre-se dos estereótipos, daquilo que nos é imposto pela mídia, especialmente a mídia jurídica quando se trata do exercício de nossa nobre profissão. Todos os dias somos "agredidos" pela visão ideal da perfeição. Jornais, revistas, televisão, propagandas apontam só pessoas bem-sucedidas, inteligentes, felizes. E mais: ameaçam quem pretende fugir das regras. Saída possível? Leia, informe-se e adquira uma visão crítica sobre as informações veiculadas e, se possível, exponha-se menos ao bombardeamento da mídia.

Advogado bom é aquele que vive honestamente da advocacia e não aquele que simplesmente se parece com um bom advogado, custe o que custar. Advogado bom tem estofo, acompanha processo no balcão, tem família, tem moral, tem bons costumes, tem namorada, se diverte, faz zoeira, enfim, é um ser normal, que inclusive usa calça jeans e também faz xixi de porta aberta... conhecimento jurídico se tem e ponto! E, não é por sentir culpa que esse conhecimento vai aumentar!!!

Deixem o sentimento de culpa - que é caracterizado pelo estado de abatimento - para aqueles que têm consciência de haver violado algum princípio ou faltado com uma obrigação, de ter feito algo realmente sórdido ou repreensível.

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