Estava lendo o "Estadão" de hoje e verifiquei que no jornal não há nenhuma menção ao Feriado Nacional de Tiradentes e tampouco à fundação e aniversário de Brasília... acho isso um absurdo, uma afronta.
Por isso a digressão aqui no blog, obviamente temperada com algumas considerações pessoais minhas.
Aí vai:
Em meados do século XVIII, a produção de ouro no Brasil, que era a principal fonte de receita da coroa portuguesa, começou a se tornar escassa.
Esta situação abalou o pacto colonial. Sem a quantidade usual de ouro sendo remetida à corte, Portugal resolveu criar mais impostos e aumentar os já existentes. Com isso, crescia o descontentamento da elite colonial e começavam a surgir anseios de autonomia. Pensadores como Rosseau, Voltaire e Montesquieu, inspiraram os ideais revolucionários. Mas o fator desencadeante destes movimentos foi a independência dos Estados Unidos, em 1776, livrando-se do jugo inglês.
No Brasil, formou-se um grupo chamado de Inconfidentes. Liderado por Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o movimento contava com a elite intelectual mineira.
O dia 21 de abril passou a ser feriado nacional. Trata-se de uma homenagem que o Brasil presta ao sacrifício de Joaquim José da Silva Xavier, que foi enforcado e esquartejado, a 21 de abril de 1792, devido a seu envolvimento com a Inconfidência - um dos primeiros movimentos organizados pelos habitantes do território brasileiro, no sentido de conseguir a independência do país em relação a Portugal.
Vale a pena saber exatamente porque se presta essa homenagem a Tiradentes. Conforme já salientado, no século 18, o Brasil era uma colônia portuguesa que gerava grandes lucros para sua metrópole, em função do ouro e dos diamantes que haviam sido descobertos na região que ficou conhecida como a das Minas Gerais. Essa região tornou-se o centro econômico e cultural do país. Nela surgiram várias cidades ricas e importantes, como Vila Rica (atual Ouro Preto), São João Del Rei e Sabará.
Portugal explorava o ouro brasileiro, mas nem todas as pessoas ligadas ao garimpo pagavam os impostos que a metrópole cobrava. Também havia muito contrabando das riquezas minerais. Além disso, essas riquezas não eram infinitas e começaram a se tornar escassas. Detalhadamente falando, o governo português, porém, acreditava que a diminuição no volume de seus lucros com a mineração se devia ao contrabando e à sonegação dos brasileiros. Por isso, começou a aumentar os impostos e tomar medidas repressivas contra os naturais da terra.
Desse modo, os brasileiros se revoltaram e isso aconteceu quase na mesma época em que os Estados Unidos se tornaram independentes da Inglaterra. Ao mesmo tempo, na Europa, filósofos e pensadores criticavam a monarquia e o poder absoluto dos reis. Tudo isso influenciou as elites de Minas Gerais e as levou a conspirar em prol da Independência. A maioria dos conspiradores eram homens ricos e cultos como Claudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga.
A idéia do movimento era se livrar do domínio português e promover o desenvolvimento do novo país, através da livre produção, da criação de universidades e da abolição da escravatura. Porém, antes que o movimento conseguisse por em prática seus planos, o grupo foi delatado por um de seus membros. Todos os participantes foram presos. Tiradentes foi confinado por três anos em uma masmorra, até sair a sentença de seu julgamento. O líder do movimento inocentou todos os seus companheiros, que foram condenados à prisão ou ao degredo.
Pobre, somente Tiradentes, que era um simples alferes (cargo militar semelhante ao de tenente), e que tinha esse apelido por exercer também o ofício de dentista, é quem saía às ruas, procurando conquistar a adesão do povo ao movimento.
Durante o julgamento, Tiradentes manteve-se firme e não denunciou seus companheiros, sendo certo que todos os que tinham posses conseguiram escapar da pena máxima, trocando-a pela prisão ou pelo exílio. Quanto a Tiradentes, foi condenado à morte e ao esquartejamento, para que as partes de seu corpo ficassem expostas ao público, de modo a desencorajar outras tentativas de rebelião. Executado como um criminoso, Tiradentes se transformou no primeiro herói brasileiro, logo após a nossa Independência, em 1822.
O fato é que, no dia 21 de abril de 1792, Tiradentes foi enforcado, decapitado e teve seu corpo esquartejado. Sua cabeça e as partes de seu corpo foram espalhadas por Vila Rica, a sede da Inconfidência, sua casa foi destruída e seus descendentes considerados infames. Embora tenha sido derrotado, Joaquim José da Silva Xavier converteu-se em um mártir, plantando a semente do processo de independência do Brasil. Mas sua luta só teve reconhecimento muitos anos depois de sua morte. Somente em 1867, quase 50 anos após a independência do Brasil, é que se ergueu em Ouro Preto um monumento em sua memória, por iniciativa do presidente da província Joaquim Saldanha Marinho. Mais tarde, no período republicano, o dia 21 de abril se tornou feriado nacional, e, pela lei 4.867, de 9 de dezembro de 1965, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira.
Por outro lado, quase dois séculos após, em 1960 no Governo Kubitschek, é inaugurada Brasília, a nova Capital Federal, marco arquitetônico e urbanístico de projeção internacional e que congrega nossos Três Poderes e alicerces, pelo menos em tese, de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.
Fico aqui pensando, talvez divagando no sentido de surgir nos dias de hoje, na nossa moderna e aniversariante Brasília um novo “Tiradentes” que, com base na preservação dos valores econômicos, intelectuais e culturais, e de forma autônoma, se insurja em face das arbitrariedades que estamos sofrendo por parte de nosso governo. Será que seria levado ao enforcamento ou ao esquartejamento e exibição em praça pública?
Talvez o “novo inconfidente” não fosse condenado à morte pelos métodos mais vetustos, já que há tempos foi abolida a “manus injectio” de nosso sistema, ou seja, o pagamento de pena com o próprio corpo do culpado ou devedor; mas, certamente, seria condenado à morte moral, como aliás ocorre em nossos dias, através da máquina publicitária estatal, elaboração de dossiês, etc., etc.
O pior é que na época da “Nova Brasília” não somos mais explorados pela “Metrópole”, pelo que não há mais o objetivo da independência. Temos que buscar a independência de nós mesmos, daqueles que elegemos com nosso voto democrático e que por nossa iniciativa estão majestosamente sentados sobre a rapadura.
Acho que nesse 21 de abril em que, além de ter sido martirizado Tiradentes e fundada Brasília, também foi fundada Roma por Rômulo e nasceram Silvio Romero (um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras), Hilda Hilst, Mário Covas, e em que faleceram o Arcebisbo de Cantebury (Santo Anselmo, douto Filósofo Medieval) e Tancredo Neves dentre outros, temos que pensar se não estamos retrocedendo ao status do Brasil Colônia e tornando-nos reféns de nós mesmos, cativos daqueles que elegemos e aos quais nos curvamos e a cujos caprichos cedemos dia-a-dia, permitindo-nos ser explorados, como se nunca tivesse existido a abolição da escravatura ou se o holocausto de Tiradentes fora em vão.
É isso.