
Hoje, em sala, me deparei com alunos dormindo durante minha aula. Fiquei aborrecido e desapontado... Me perguntei se havia algo errado comigo. Perguntei aos alunos se a aula fora boa. A resposta foi afirmativa e pelos seus rostos percebi sorrisos de satisfação.
Mas ficou a dúvida: o que ocorreu com os dorminhocos?
De fato, não se agrada a todos durante todo o tempo, mas o aluno dormir gera um enorme mal-estar.
Naturalmente, após a aula, recebi justificativas e pedidos de desculpas, mas parei para pensar o que estava ocorrendo e qual o motivo dessa prática cada vez mais comum entre os discentes.
Uma escola americana na cidade de Danbury, no estado de Connecticut, está sendo processada por um aluno que alega ter sofrido “danos auditivos” quando foi acordado por uma professora enquanto dormia durante a aula.
Segundo documentos do processo, Vinicios Robacher, um estudante de 15 anos, alega que sua professora Melissa Nadeau teria dado “uma forte batida com a palma da mão” em sua carteira quando ele dormia.
Além do susto, Robacher alega que o barulho causado pelo método pouco usual de ser despertado lhe causou “danos muito severos em seu tímpano esquerdo”. O ato teria acontecido no início de dezembro do ano passado.
Dormir. Alguns estudantes dormem pouco, especialmente os jovens. Às vezes 4, 5 horas por noite. Isso devido ao trabalho que fazem, os bicos, os estágios crussificantes, durante a maioria do tempo em que são estudantes universitários. Esses bicos, muitas vezes, garantem a manutenção do estudante na cidade em que estudam, onde é comum muitos deles alugarem um quarto se estiverem morando longe de casa.
Os maiores vilões, penso eu, são os escritórios de advocacia ou empresas que oferecem estágios nas quais o aluno é submetido a verdadeiras maratonas, em razão das quais seu curso acaba por ficar prejudicado...
Com a dupla jornada, as horas de descanso e de estudo, concomitantemente, ficam reduzidas. Uma coisa engraçada é que quando pergunto para alguns deles quantas horas dormem, eles geralmente costumam incluir as horas dormidas em casa e dentro dos transportes públicos. É comum a visão de estudantes dormindo dentro dos trens e ônibus, mas o que é mais incrível, mesmo embalados pelo sono, sempre acordam magicamente na estação ou no ponto que devem descer. Como se soasse uma campainha interna avisando que é a hora de descer (claro que ajudados pelos sonoros chamados dentro dos transportes avisando os nomes das estações).
Em sala de aula, a visão de alunos dormindo me incomoda. Claro que não são todos. Eu, particularmente, não gosto. Falo que se quiser dormir, pode ficar em casa, ou que o faça fora de sala de aula. Chego às vezes a pedir que colagas cutuquem alguns alunos para que despertem. Se está interessado em me ouvir, é pra ficar de olhos e ouvidos atentos. Entrar na sala e dormir não permito. Alguns alunos, morrendo de sono, começam um processo de auto-flagelação para não cair nos braços de Morfeu. Vejo-os se beliscando e dando tapas nas próprias pernas para se impedirem de cair no cochilo ou naquelas cômicas pescarias.
Bizarro...
Penso que dormir em sala de aula fere a honra como auto-respeito e o respeito ao outro.
Pensando no tema da honra, eu me lembrei de que, quando cursei o ensino fundamental, honra era, por exemplo, não denunciar um colega. Era uma virtude, coisa de honra moral.
Naqueles tempos, se acontecia de um colega, de forma tola, atirar um pedacinho de giz nas costas da professora, quando ela se virava e perguntava: “Quem foi que fez isso?”, comunicava solenemente: “Se ninguém se denunciar, a classe será suspensa por dois dias”. E ninguém fazia nenhuma denúncia. Isso era chamado de honra. Talvez fosse até uma noção um pouco estranha de honra, porque poderia redundar depois em corporativismo, que atinge algumas profissões. Mas seu ponto de partida era a lealdade. Será que isso não conduziu a gente para uma sociedade que entende que qualquer acusação seria quebra da honra?
Creio que não.
Gosto muito do conceito de honra e tenho trabalhado com ele nas minhas elocubrações acerca da vergonha. Mas, voltando aos dois tipos de honra existentes: há aquela conferida a priori (porque a pessoa é nobre ou ocupa determinada posição), que não nos interessa aqui, mas há a honra virtuosa, ligada à virtude, a categorias morais. Exemplo: ao não denunciar a pessoa que fez algo errado, no fundo, voltamos à lógica do “nós” e “eles”. No contexto mencionado, o professor é o “ele” e os alunos formam um “nós”, por mais que um deles não goste especificamente da pessoa que jogou o giz. Acho que é uma boa forma de solidariedade interna, no sentido de que é resultante das relações entre os próprios alunos; não se trata de uma solidariedade imposta.
Desse modo, creio que isso não levaria à tolerância sem limites, a aceitar qualquer comportamento. Naturalmente, o caso seria outro se fosse alguma coisa grave, algum crime etc.
Porém, como prática de resistência à autoridade, como forma de estabelecer laços de reciprocidade, considero um aprendizado saudável. Acho boa a postura da diretora: “Se vocês não contarem, todo mundo vai...”. É adequada a lógica do outro lado também. Eles estão participando de um jogo: “Vocês não querem dizer. Então, todos vão pagar”; condição aceita pelos alunos.
No entanto, a questão merece uma análise um pouco mais profunda. Como docente, digo que temos sempre que falar a verdade. Posso eu entender a omissão da verdade como sendo aceitável? De fato, trata-se de um dilema kantiano.
Até acho que em algumas situações é aceitável. Por exemplo, quando o meu filho ainda pequeno me mostrava um desenho e perguntava: “Pai, ta bom esse desenho?”, naturalmente, eu dizia que sim, mas o que eu omitia era a seqüência da frase que estava na minha cabeça: “de acordo com as circunstâncias”.
Suponhamos que alguém solicite minha opinião assim: “Ficou bom o meu cabelo?”.
Eu tenho que responder afirmativamente, mas não vou dizer, mesmo que o pense, “de acordo com as circunstâncias”. Por que estou falando isso? Porque acho que uma das regras da convivência civilizada reside na capacidade do ser humano de ser sincero sem ser franco. Ou seja, tudo que se disser tem de ser verdade, o que não se deve é dizer toda ela sempre, pois há momentos em que o aclaramento de toda a verdade beira o patamar da ofensa.
Assim, sou um defensor a sinceridade, mas acredito que a franqueza deva ser reservada a situações específicas, quando há urgência ou quando ela é solicitada. Se me for perguntado: “A minha aula foi boa?”, eu posso contestar: “Você quer que eu seja sincero?”. Então provavelmente você diria: “Já sei; não foi”. Mas eu posso ser sincero sem ser franco: “Olha, gostei muito disso, daquilo”. Mas não falo do conjunto. Você sabe, em português, a noção de “franqueza” está relacionada à maneira como os brasileiros viam os franceses, porque ela veio exatamente dessa idéia de que os franceses tinham um jeito rude de se relacionar, uma vez que não seguiam os padrões da diplomacia italiana ou espanhola, por exemplo, que de modo geral é a diplomacia da espada. Mas os franceses tinham o hábito – e até hoje têm, como cultura – de ser muito francos.
E isso choca bastante os brasileiros. Se um brasileiro está na França, telefona para um francês e o convida: “Você quer vir à minha casa esta noite?”, ele às vezes responderá apenas “Não, obrigado”. No Brasil, diz-se: “Não posso”; “Não posso porque tenho outro compromisso” etc. Aqui, a resposta é sempre algo desse tipo. Nunca se diria: “Não, obrigado, hoje não quero”.
Aqui no Brasil, se você, por exemplo, entra em uma sala em que alguém está trabalhando e indaga: “Eu o incomodo?”, a resposta será algo como: “Não, já ia parar um pouquinho”. O francês responderia “sim”. Creio que é importante que procuremos trabalhar essa distinção entre sinceridade e franqueza com os alunos, como forma de civilidade.
E retornando um pouco antes, o que você comentava sobre a honra, eu me pergunto o que seria a honra da parte do professor. Entre os alunos, ficou clara a questão da honra virtuosa. E do lado docente? A nossa honra estaria em não abrir mão da nossa autoridade docente, em não desistir, em ser determinado, a nossa honra estaria em sermos competentes?
Penso que a nossa honra é composta por tudo isso. Não gosto muito da referência à autoridade, mas competência é indispensável... Enfim, vamos analisar a questão. Nós somos professores, mas antes de mais nada somos seres humanos dentro da sala de aula.
Vamos exemplificar. Digamos que estou dando aula e verifico que há um aluno dormindo. O que eu faço? Geralmente paro a aula (que, aliás, tem o efeito de acordar a pessoa imediatamente; era o zumbido da aula que a fazia dormir!), dirijo-me a ela e lhe digo que não se pode dormir durante a aula.
A mensagem é a de que, ao dormir, a pessoa está fazendo como se eu não existisse, e isso é inaceitável. Talvez, alguns pensem que o essencial é que seja respeitada a figura do professor (se fosse outro aluno dando um seminário, não teria problema).
Ou então, alguns podem achar que se deve acordar o aluno porque a aula é muito importante. Mas, para mim, o essencial não está nem na figura de autoridade nem na finalidade pragmática de que determinados conteúdos sejam aprendidos.
O essencial está no respeito devido a outrem. Aí há uma questão de honra: eu não aceito ser desmerecido, ser desrespeitado por ninguém, não como professor, mas como ser humano. Geralmente o aluno aceita isso. Às vezes, acontece de ele explicar: “Desculpa, mas eu não dormi a noite toda”. Ao que então eu digo: “Ah, é isso? Então pode dormir. Mas deveria ter explicado as razões de seu possível sono”. É diferente quando alguém argumenta: “Olha, talvez eu não consiga ouvir a sua aula. Portanto, se eu praticamente desmaiar na minha cadeira, não é falta de respeito, é sono de verdade”. Então, tudo bem.
Então, o patamar mínimo de honra do professor é a honra de qualquer pessoa. Conversando com alunos, já observei que um professor de que os alunos não gostam é justamente aquele que não se defende. Sabe, o professor que deixa fazer bagunça, que deixa dormir – em uma palavra, que é indiferente. Eles até gostam no aqui e agora. Enquanto o professor os deixa conversar, eles estão felizes ali. Mas, retrospectivamente, quando vão avaliar o curso e a figura do professor, este é um de quem eles não gostam. Acho que eles não respeitam o professor que não se respeita. Honra é também auto-respeito.
Efetivamente, o aluno que dorme em sala de aula está com um problema, seja de condições físicas, seja de interesse. Quando faz isso, sinto que ele – e vou usar uma palavra que acho forte porque, para mim, ela é uma das que levam à fratura ética – tem uma postura de desprezo. Mas se eu, professor, admito isso, também tenho eu uma atitude de desprezo. Por mim e por ele. Porque, como sou um educador – e, portanto, tenho para com ele uma responsabilidade pedagógica -, qunado eu não vou até ele para saber as razões daquele ato, estou desrespeitando a minha tarefa e a dele como aluno. Então, haveria um desrespeito recíproco.
Às vezes acontece até o de o aluno, no final da aula, vir se desculpar. Talvez ele se torne um excelente aluno, talvez se aproxime mais depois disso, porque ele sentiu que foi respeitado e foi levado em conta como pessoa, e não representa apenas mais um, não é só um número.
Penso que é preciso se retirar do espaço acadêmico o desprezo. Por exemplo, o desprezo pela escola pública, por parte inclusive de alguns de seus próprios professores, que vivem uma espécie de esquizofrenia ética, pois sendo docentes tanto da rede pública quanto da rede privada, comportam-se de um modo na primeira e de outro na segunda. Na rede privada de ensino, ele vai às reuniões, não deixa de fazer o planejamento. Já na rede pública ele se ausenta, utiliza todas as licenças, como se elas fossem obrigatórias, ele despreza o trabalho. Há quem use a escola pública até como ameaça para os filhos: “Se você não estudar, vou coloca-lo numa escola pública. Você vai ver o que é bom!”. Esse é um desprezo profundamente negativo, porque acaba contaminando a visão que se tem dos alunos: “Essa meninada não sabe nada”; “Eles não merecem a aula que preparei”. Como se ali não houvesse necessidade de desenvolver um trabalho coletivo, um trabalho pedagógico da escola.
Nenhum jovem, nenhuma jovem deixa de se interessar por aquilo que os interessa. Se estou em uma atividade em sala de aula que não merece o respeito recíproco, alguma coisa está errada naquele ponto. Não dá para desprezar o aluno e supor que haja ali um déficit de pessoa, que haja menos gente ali dentro. Esse desprezo é muito negativo.
Negativo e moralmente condenável, e, do ponto de vista pedagógico, extremamente nocivo. A idéia de não levar a criança, o aluno a se superar... Você falou bem, na escola pública, onde o trabalho do professor faria mais sentido, ele acaba não acontecendo.
Mas voltando à discussão sobre honra, eu a vejo como algo mais pessoal, não gosto muito da idéia da honra da profissão. Porque, para mim, esse é um conceito essencialmente moral. Eu não pensaria na minha honra como psicólogo, mas no meu dever como psicólogo. Eu vejo a honra como auto-respeito. E, não sei se você concorda, mas acho que a profissão de educador hoje carece de auto-respeito. Antes de qualquer coisa, porque ele é auto-indulgente em muitas situações...
E auto-respeito não é auto-indulgência (voltamos ao merecimento). Pelo contrário, é exigência.
Aliás, é curioso porque a palavra “respeito” significa “olhar para trás”. Ter uma atitude de respeito é ser capaz de olhar para trás, ser capaz de olhar a minha trajetória. Pensando na ética da vida coletiva, é ser capaz de olhar para trás também para ver se não ficou ninguém de fora – no sentido de estar fora da casa, fora do ethos, fora da nossa habitação. O que nos remete à clássica frase: “O hábito não faz o monge”. Muita gente imagina que “hábito”, aí, se refere apenas à roupa do monge, mas o sentido é de “hábito” como morada, como habitação, como casa ou habitat. O nome da roupa, habitus, identificava de que casa era cada monge, ou seja, na Igreja medieval se dizia “ele é da casa de São Francisco, ele é da Casa de São Domingos, ele é da Casa de São Bento”. Por isso se usava o habitus, que era a roupa que identificava a habitação. Assim, “O hábito não faz o monge” significava dizer que sou da Casa de São Francisco, mas que isso não...
Ora, essa idéia de habitação informa a que grupo pertenço, de onde sou. Então, pensando sobre a honra, como auto-respeito, questiono: O que seria minha honra como educador? Seria eu ser um educador íntegro? Sem dúvida! E o que é integridade? É ser honesto, sincero, solidário, humilde, e assim por diante. Isso me dá inteireza. Ou seja, minha casa fica em pé.
A importância da honra e da integridade vale para todos, ou seja, elas não são necessárias para qualquer profissão. Agora, pensando nas idéias de casa, nessa acepção, e de inteireza, eu diria que a identidade específica do educador está mais no conhecimento do que na sua transmissão. É claro que o trabalho de um professor é transmitir o conhecimento. Porém, penso que alguém só pode transmitir o conhecimento se acreditar firmemente que ele é uma riqueza em si, e que o fato de ter esse conhecimento o torna mais rico. Então, acredito que o orgulho do professor, o orgulho que ele deveria ter, residiria no fato de que ele é uma pessoa que detém o conhecimento e, portanto, o transmite. E tenho a impressão que hoje ocorre o contrário. Quer dizer, a identidade do professor está mais ligada à sua tarefa como um técnico que transmite alguma coisa, mas que não sente que isso lhe pertence.
O que vou fazer? Sei que quero vencer mesmo sendo professor. Vou preservar minha honra, mas sempre procurando compreender e estar ao lado de meus alunos, como, aliás, tenho feito, nesses quase 20 anos de docência, mas que não venham dormir ou pescar enquanto eu estiver lecionando.
É isso.