Depois que postei a matéria acerca de Hamilton Naki, o cirurgião clandestino (
http://blogdoscheinman.blogspot.com/2008/10/voc-j-ouviu-falar-de-hamilton-naki-o.html) médico sul-africano que, no regime do apartheid, colaborou substancialmente com a medicina, mas teve sua identidade ocultada por ser negro, além da celeuma criada na campanha política à eleição municipal da Cidade de São Paulo em que uma candidata teria feito insinuações acerca da vida íntima de outro candidato, me ví a refletir se no nosso amado Brasil há ou não o preconceito ou o racismo, essa prática nefasta que por diversas vezes destruiu civilizações inteiras, deflagrou guerras e derramou sangue de inocentes.
Sempre observo que o Brasil é um País onde todos vivem fraternalmente e onde, em regra, não se fomenta o preconceito. Em tese, as liberdades individuais são respeitadas e como dizia meu saudoso avô, sempre bem humorado: "cada um desce do bonde do jeito que quer"...
Mas há um debate que segue me chamando a atenção. É a questão polêmica das cotas para negros nas academias brasileiras.
Penso que, se de um lado há um preconceito velado que se pratica no País, suscitando que o racismo tupiniquim é diferente do racismo do Tio Sam, eis que o nacional é mais sutil, mais delicado, talvez até um tanto anedótico e gera reflexos na questão das cotas sociais nas universidades, por outro lado, há um grupo mais "linha dura" bastante politizado, partidário de opiniões com leve tempero trotskista, que sustenta, na contra-mão da História, com base na doutrina socialista pura, em linhas gerais, que todos têm direito à educação, que deve ser provida pelo Estado, o que rechaçaria a teoria das cotas para "afro-brasileiros"...
Destarte, sem anuir com os motivos, simpatizo com esse segundo posicionamento relativamente às cotas; penso que vagas nas universidades, escolas, academias, sociedade em geral, conforme até pode facultar legislação pertinente, não devem ser definidas por cor de cútis, origem, raça, etc., mas sim diante da condição social, ditada, por exemplo, por aqueles que advém das escolas públicas ou de sua condição ou classe social.
Dizer que alguém faz jus a uma vaga na universidade apenas porque tem pigmentação diferente na pele é no mínimo temerário, já que pessoas, de diferentes raças, cores, credos, etc., podem possuir exatamente a mesma capacidade ou qualidade intelectual ou laborativa, contanto que as tenham exercitado nas mesmas condições de estudo.
Não sei porque resolvi escrever sobre esse tema já tão batido. Talvez porque mais uma vez me lembrei de Querido - e hoje Amigo com "A" maiúsculo - Professor de Direito Penal que iniciou seu curso falando das teorias desenvolvidas pelo criminologista itliano Cesare Lombroso, nascido em Verona no ano de 1835 e falecido em Turim em 1909, cuja obra mais marcante foi "L'Uomo Delinquente" de 1876, e os princípios da fisiognomia (estudo das propriedades mentais a partir da fisionomia e características físicas do individuo). Lombroso morreu e sua teoria se foi também.
Hoje é parte dos livros de História, sem qualquer rigor científico.
Penso que fixar cotas para negros nas escolas, apenas porque são negros (um conceito bastante subjetivo, não?) é, de certa forma, estabelecer uma relação entre a característica física e capacidade intelectual do indivíduo.
Sob meu ponto de vista, é inadmissível, em pleno Século XXI, procurar-se reacender os princípios lombrosianos (repito, os princípios norteadores e não a teoria em sí...), para justificar uma posição relativa às cotas nas universidades.
Perigoso, muito perigoso... e, se a lei adota tal principiologia com relação às cotas, amanhã poderá vir com idéias mirabolantes no campo da antropologia criminal lombrosiana. Existirá algo mais racista????
Penso que estabelecer cotas aos indivíduos de cor negra, apenas com base nesse princípio, nada mais é do que uma forma clara de preconceito. E por favor, não me venham com a assertiva de que não existe médico negro, advogado negro, professor negro e etc. A questão não é a cor da pele, e sim que é mais dificil uma pessoa sair da classe E e se tornar um médico.
Se quer abrir cotas em universidades para resolver um problema social, não use como criterio de seleção um conceito racista, e sim social: conforme mencionei, abra-se cotas para carentes (apesar de eu achar que deve-se reforçar a base escolar primeiro), e principalmente, outorgue-se condições para que essas pessoas consigam se formar...
Infelizmente tenho observado que alunos que ingressaram em universidades por meio de cotas raciais não têm a menor condição de se formar, por não ter a base necessaria ou simplesmente diante da falta de recursos ou mesmo vontade de estudar, já que esta é uma realidade distante de suas vidas.
Mas, se esses mesmos alunos, independentemente de sua cor de cútis, fossem os melhores de suas escolas e demonstrassem verdadeira vontade de estudar e vencer, certamente não haveria qualquer dificuldade de acompanhamento das aulas nas universidades e o consequente desestimulo nos estudos.
Em suma, penso que a idéia de colorir a universidade deve dar espaço à idéia de misturar aqueles que advém de diferentes camadas sociais da população, contanto que tenham o mesmo ânimo de estudar e vencer, pouco importando a cor de sua pele.
Como uma cópia mal tirada da sociedade norte-americana, por exemplo, não seria intolerável no Brasil que nas universidades se abrissem vagas por cotas para loiras apenas por que - anedoticamente - dizem que loiras são burras?
Certamente que essa política das cotas para as loiras seria inadmissível, preconceituosa. Com a devida "venia", o mesmo argumento vale para as cotas para negros, que tendo condições, sendo inteligentes, estudiosos e levando os estudos a sério, jamais precisam de qualquer regalia para aprovação em escolas, vestibulares ou vestibulinhos e em concursos.
Basta, para tanto, que se tenha condições de chegar à universidade!!! E, o caminho é o estabelecimento de cotas por condições ou níveis sociais, ou de acordo com as necessidades das várias camadas da população ou a origem do discente ser de escola pública.
O sistema de cotas raciais fomenta o preconceito. Tal como no regime do apartheid sul-africano, tal sistema reputa os negros de incapazes, levantando-se dúvidas acerfca de seu potencial, força de vontade ou inteligência.
E, isto me entristece, quando o observo num País em que se diz inexistir ou em que se está a vencer o preconceito racial.
Que cada um, independentemente de sua religião, cor, credo, raça, opção sexual, etc., etc., possa perseguir seus objetivos e não se socorrer de leis absurdas para superá-los.
E benditos sejam os que tenham peito para contestar essa lei preconceituosa e absurda!!!
Tá aí!